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Belle de Jour · Jodok / 2 ded di prosa
postado em 12/12/07 05:22 PM

Jodok

Foi no Cine Bristol que vi, pela última vez, a Belle de Jour. E, minutos antes da sessão, na ante-sala, penumbra, subitamente avistei Catherine. Ou não era Catherine? Assustei-me com a dúvida. Porque avistei-a sem reconhecer, reconheci-a sem reconhecer. Seus olhos não eram os de Catherine, os cabelos em franja, também não. O resto era, especialmente o sorriso. Estarrecido, desnorteado, a observei, aguardando que Catherine me ajudasse a reconhecê-la. Em vão.

Catherine era minha amiga de longa data e não haveria como confundí-la com outra pessoa, nem se houvesse alguma irmã gêmea. Nem assim. Mesmo quando Catherine foi para uma agência maior, com mais compromisos e menos tempo livre, continuamos nos escrevendo todos os dias. E Catherine lutava tenazmente para incluir espaços em sua agenda lotada, para que pudéssemos manter as nossas conversas, a nossa proximidade. Porque sempre tínhamos conversado muito sobre as pequenas mazelas e os grandes risos da vida.

Mas Catherine não me olhava, não me via. Como poderia reconhecê-la dessa maneira? Por fim, tive medo de reconhecê-la como não sendo Catherine ou não sendo aquela que eu conhecia, pensava em conhecer.

É verdade, que nossos encontros nunca aconteceram. Percalços, compromissos de última hora, horários desencontrados… Aos poucos estabeleceu-se uma estranha e angustiante rotina: “Vamos almoçar juntos”, me ligava Catherine, e pouco depois “acho que não vai dar”. Os encontros com Catherine invariavelmente se tornavam desencontros. Inicialmente, tentei entender, mas quando os desencontros se tornaram mais e mais descabidos, passei a temer profundamente que Catherine me ligasse. Ou que não me ligasse.

Instintivamente temi reconhecer Catherine, temi que ela subitamente cancelasse aquele instante, aquela sessão Buñuel, a Belle de Jour. Naquele momento eu ainda não sabia que já havia duas Catherines, eu deveria ter percebido há tempo. Há quanto tempo? Talvez… provavelmente desde sempre. Eu deveria saber que a Catherine dos Encontros não era a mesma Catherine que os desmarcava em seguida – a dos Desencontros, que sentia prazer na a minha vã luta em compreender a presença ausente da outra. Talvez até desconfiasse, mas se isso tivesse ficado claro antes, teria me ajudado a superar a perplexidade, a angústia, a dúvida, ali no Bristol.

Como saber qual das Catherines estava ali, sem que seu olhar cruzasse com o meu? Como distinguí-las, se eu apenas conhecia uma delas? Pensei se acaso eu também – em função daqueles desencontros todos – não teria me transformado em mais de um? Qual de mim estaria lá naquele momento?

Quando Catherine se tornou mais de uma, acho que a minha Catherine, aquela que eu conhecia e reconheceria em qualquer lugar, não deu muita importância. Deve ter sido por isso que a Catherine dos Desencontros tomou a frente, assumiu o controle do jogo. Com o tempo, a outra Catherine apenas me ligava para que as desculpas dessa pudessem tomar forma e volume.

Hoje penso que a Catherine dos Desencontros tenha se separado da outra no mesmo momento em que as minhas mazelas se tornaram mais frequentes que meus risos. Mas eu não tinha mais como sorrir, espremido dentro daquele jogo que apenas as duas Catherines conheciam.

Quando começou o filme, eu já não via mais Catherine – qual delas quer que tenha sido – e também foi a última vez que vi a Belle de Jour.

Parece que, após aquele dia, no Bristol, ocorreu mais uma, a derradeira, transformação com Catherine, com as Catherines – e dessa vez eu pude pressentir o que estava por vir. Por algum motivo, a Catherine dos Desencontros, que faz tempo tinha assumido o destino das duas, voltou a se unir com a Catherine original. Entretanto, a simbiose não refez a minha Catherine e nem poderia fazê-lo. Sim, voltou a existir apenas uma Catherine. Acho que agora responde apenas pelo nome Desencontros, mas é difícil saber com certeza. Pois, tecnicamente falando, ela nem responde mais.

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