| lonjura ·
Jodok / Jodok
postado em 06/03/08 |
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Jodok
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Não alcanço a lonjura dos meus pensamentos.
Lá vão eles, já passando o alto da coxilha. Uma manada lenta de pensamentos.
Depois se desfazem como estilhaços de viração ou tufos de algodão-doce de feira.
A grande nuvem os absorve e continuo aqui, olhando metade do mundo.
| Lorelei III ·
Jodok / gaivotas
postado em 03/03/08 |
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Jodok
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O som das ondas nas rochas
é o canto da Lorelei
Nós fugimos mundo a dentro
mas é o porto que trai
a proa altiva, as velas balofas
os sete mares a conquistar
Pois se a vazante nos leva
seu canto – um dia – nos faz retornar
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| ciclos ·
Jodok / Jodok
postado em 16/02/08 |
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Jodok
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Umas folhas douradas pelo chão
como se fosse outono
– o vento não consegue
varrê-las.
São minhas eternas folhas douradas
anunciando
mais uma primavera.
| Belle de Jour ·
Jodok / 2 ded di prosa
postado em 12/12/07 |
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Jodok
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Foi no Cine Bristol que vi, pela última vez, a Belle de Jour. E, minutos antes da sessão, na ante-sala, penumbra, subitamente avistei Catherine. Ou não era Catherine? Assustei-me com a dúvida. Porque avistei-a sem reconhecer, reconheci-a sem reconhecer. Seus olhos não eram os de Catherine, os cabelos em franja, também não. O resto era, especialmente o sorriso. Estarrecido, desnorteado, a observei, aguardando que Catherine me ajudasse a reconhecê-la. Em vão.
Catherine era minha amiga de longa data e não haveria como confundí-la com outra pessoa, nem se houvesse alguma irmã gêmea. Nem assim. Mesmo quando Catherine foi para uma agência maior, com mais compromisos e menos tempo livre, continuamos nos escrevendo todos os dias. E Catherine lutava tenazmente para incluir espaços em sua agenda lotada, para que pudéssemos manter as nossas conversas, a nossa proximidade. Porque sempre tínhamos conversado muito sobre as pequenas mazelas e os grandes risos da vida.
Mas Catherine não me olhava, não me via. Como poderia reconhecê-la dessa maneira? Por fim, tive medo de reconhecê-la como não sendo Catherine ou não sendo aquela que eu conhecia, pensava em conhecer.
É verdade, que nossos encontros nunca aconteceram. Percalços, compromissos de última hora, horários desencontrados… Aos poucos estabeleceu-se uma estranha e angustiante rotina: “Vamos almoçar juntos”, me ligava Catherine, e pouco depois “acho que não vai dar”. Os encontros com Catherine invariavelmente se tornavam desencontros. Inicialmente, tentei entender, mas quando os desencontros se tornaram mais e mais descabidos, passei a temer profundamente que Catherine me ligasse. Ou que não me ligasse.
Instintivamente temi reconhecer Catherine, temi que ela subitamente cancelasse aquele instante, aquela sessão Buñuel, a Belle de Jour. Naquele momento eu ainda não sabia que já havia duas Catherines, eu deveria ter percebido há tempo. Há quanto tempo? Talvez… provavelmente desde sempre. Eu deveria saber que a Catherine dos Encontros não era a mesma Catherine que os desmarcava em seguida – a dos Desencontros, que sentia prazer na a minha vã luta em compreender a presença ausente da outra. Talvez até desconfiasse, mas se isso tivesse ficado claro antes, teria me ajudado a superar a perplexidade, a angústia, a dúvida, ali no Bristol.
Como saber qual das Catherines estava ali, sem que seu olhar cruzasse com o meu? Como distinguí-las, se eu apenas conhecia uma delas? Pensei se acaso eu também – em função daqueles desencontros todos – não teria me transformado em mais de um? Qual de mim estaria lá naquele momento?
Quando Catherine se tornou mais de uma, acho que a minha Catherine, aquela que eu conhecia e reconheceria em qualquer lugar, não deu muita importância. Deve ter sido por isso que a Catherine dos Desencontros tomou a frente, assumiu o controle do jogo. Com o tempo, a outra Catherine apenas me ligava para que as desculpas dessa pudessem tomar forma e volume.
Hoje penso que a Catherine dos Desencontros tenha se separado da outra no mesmo momento em que as minhas mazelas se tornaram mais frequentes que meus risos. Mas eu não tinha mais como sorrir, espremido dentro daquele jogo que apenas as duas Catherines conheciam.
Quando começou o filme, eu já não via mais Catherine – qual delas quer que tenha sido – e também foi a última vez que vi a Belle de Jour.
Parece que, após aquele dia, no Bristol, ocorreu mais uma, a derradeira, transformação com Catherine, com as Catherines – e dessa vez eu pude pressentir o que estava por vir. Por algum motivo, a Catherine dos Desencontros, que faz tempo tinha assumido o destino das duas, voltou a se unir com a Catherine original. Entretanto, a simbiose não refez a minha Catherine e nem poderia fazê-lo. Sim, voltou a existir apenas uma Catherine. Acho que agora responde apenas pelo nome Desencontros, mas é difícil saber com certeza. Pois, tecnicamente falando, ela nem responde mais.
| hoje não fui na feira ·
Jodok / 2 ded di prosa
postado em 10/11/07 |
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Jodok
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Nada de novo nisso, uma vez que faz anos que não vou na feira do livro. Mas hoje, excepcionalmente, no sábado-de-véspera-de-fim-de-feira, quase fui.
Pra quem não sabe: a feira é onde todo mundo vai nessa época do ano. Todo mundo. Quem gosta de ler e quem não gosta, quem escreve e também quem não, quem é de Porto Alegre e quem não é, quem quer tomar um chopp ou apenas vender seu pastelzinho, quem se acha e também quem nem tanto… Só eu é que não vou. Com certeza que me enquadro em várias das categorias de pessoas que deveriam ir lá, mas não vou. E hoje quase fui.
A culpa toda foi dos Correios. Ou, talvez, do pacote de remédios que precisei enviar para abroad. Não importa. E eis que desço no Mercado e me vou ao Correio Central, ali na Siqueira Campos, flanqueado pela dita feira. Atrasado como sói acontecer, dez minutos para fechar.
Fechado.
Fixado à jalousie (que é como hoje vou designar erroneamente aquela porta metálica de correr vertical) dos Correios, quase à altura dos olhos de uma pessoa de estatura avantajada, um recado: (resumindo) hoje, neca-pau; dirija-se preferencialmente à agência dentro da Globo ou então à do shopping da Rua da Praia.
Na Globo já estive, 3 minutos atrás, para comprar a fita durex que deveria selar o pacote. Voilà. Então, ao shopping – um pouco mais próximo. Sete minutos. Não tenho escolha além de atravessar a feira.
Mesmo assim, não atravesso. Vou costeando-a “por detrás” e sigo pela Andradas, a passo acelerado. Na ida. Na volta venho dolente, o pacote já postado.
A dolência (quase malemolência, como diria o Gupta) me permite observar melhor os arredores. Vejo: à minha esquerda, as tendas da feira, me dando as costas educadamente; à direita, a concorrência direta – uma loja bem-sucedida chamada Bom & Barato (fica a cargo do leitor, como exercício prático, imaginar o teor do comentário que se instalou na minha mente nesse momento).
Bom, e para que não pensem somente coisas ruins a meu respeito, ressalto que contive o forte impulso de adernar à direita. Não seria justo.
Mas confesso que fiquei triste com uma coisa: a feira do livro é uma farsa, pelo menos no sábado-de-véspera-de-fim-de-feira, às 12h30. Até mesmo as moscas estavam escassas. E eu, achando que estaria desdenhando multidões…
Falando em multidões, dirigi-me ao segundo point de badalação ali do centro. Claro, o Mercado Público. Fui direto àquela banca que todo mundo (sim, as multidões) conhece por um número próximo do 40 e pela carga calórica que ali se consome sob a forma de nata, especialmente. Ainda não era a hora da nata e mandei ver outra opção junkie-calórica. E um café espresso grande, que derramei lenta e saborosamente sobre os meus pensamentos desajustados. Aos poucos, fui retornando ao meu estado niilista mais normalzinho e me senti melhor.
Aproveitei minha ida ao Mercado para comprar um pacotão de granola daqueles de quilo. Pensei: se os cafézes petrificam o trato digestivo e, especialmente, o emaranhado sistema tripóideo (“das tripa”), algo precisa ser feito para descongestioná-lo vez por outra. Mas não se exaltem, esse pacote vai durar um mês.
Por essas e outras, e por já ter dado por encerrada a minha não-ida à feira do livro, já ia eu na direção do meu ônibus, assoviando mentalmente algum antigo Schlager do STS, mas os discos usados me atraíram prum canto e acabei comprando aquele maravilhoso LP duplo A arte de Mercedes Sosa. As lembranças voaram até 1984, quando eu tinha esse disco – e, num dia não muito santo daquele ano, dei-o de presente pruma garotinha ruiva sem coração.
Se eu tivesse uma agulha boa na minha eletrola, eu teria colocado Mercedes Sosa assim que cheguei em casa. Gracias a la vida.
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