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Belle de Jour · Jodok / 2 ded di prosa
postado em 12/12/07

Jodok

Foi no Cine Bristol que vi, pela última vez, a Belle de Jour. E, minutos antes da sessão, na ante-sala, penumbra, subitamente avistei Catherine. Ou não era Catherine? Assustei-me com a dúvida. Porque avistei-a sem reconhecer, reconheci-a sem reconhecer. Seus olhos não eram os de Catherine, os cabelos em franja, também não. O resto era, especialmente o sorriso. Estarrecido, desnorteado, a observei, aguardando que Catherine me ajudasse a reconhecê-la. Em vão.

Catherine era minha amiga de longa data e não haveria como confundí-la com outra pessoa, nem se houvesse alguma irmã gêmea. Nem assim. Mesmo quando Catherine foi para uma agência maior, com mais compromisos e menos tempo livre, continuamos nos escrevendo todos os dias. E Catherine lutava tenazmente para incluir espaços em sua agenda lotada, para que pudéssemos manter as nossas conversas, a nossa proximidade. Porque sempre tínhamos conversado muito sobre as pequenas mazelas e os grandes risos da vida.

Mas Catherine não me olhava, não me via. Como poderia reconhecê-la dessa maneira? Por fim, tive medo de reconhecê-la como não sendo Catherine ou não sendo aquela que eu conhecia, pensava em conhecer.

É verdade, que nossos encontros nunca aconteceram. Percalços, compromissos de última hora, horários desencontrados… Aos poucos estabeleceu-se uma estranha e angustiante rotina: “Vamos almoçar juntos”, me ligava Catherine, e pouco depois “acho que não vai dar”. Os encontros com Catherine invariavelmente se tornavam desencontros. Inicialmente, tentei entender, mas quando os desencontros se tornaram mais e mais descabidos, passei a temer profundamente que Catherine me ligasse. Ou que não me ligasse.

Instintivamente temi reconhecer Catherine, temi que ela subitamente cancelasse aquele instante, aquela sessão Buñuel, a Belle de Jour. Naquele momento eu ainda não sabia que já havia duas Catherines, eu deveria ter percebido há tempo. Há quanto tempo? Talvez… provavelmente desde sempre. Eu deveria saber que a Catherine dos Encontros não era a mesma Catherine que os desmarcava em seguida – a dos Desencontros, que sentia prazer na a minha vã luta em compreender a presença ausente da outra. Talvez até desconfiasse, mas se isso tivesse ficado claro antes, teria me ajudado a superar a perplexidade, a angústia, a dúvida, ali no Bristol.

Como saber qual das Catherines estava ali, sem que seu olhar cruzasse com o meu? Como distinguí-las, se eu apenas conhecia uma delas? Pensei se acaso eu também – em função daqueles desencontros todos – não teria me transformado em mais de um? Qual de mim estaria lá naquele momento?

Quando Catherine se tornou mais de uma, acho que a minha Catherine, aquela que eu conhecia e reconheceria em qualquer lugar, não deu muita importância. Deve ter sido por isso que a Catherine dos Desencontros tomou a frente, assumiu o controle do jogo. Com o tempo, a outra Catherine apenas me ligava para que as desculpas dessa pudessem tomar forma e volume.

Hoje penso que a Catherine dos Desencontros tenha se separado da outra no mesmo momento em que as minhas mazelas se tornaram mais frequentes que meus risos. Mas eu não tinha mais como sorrir, espremido dentro daquele jogo que apenas as duas Catherines conheciam.

Quando começou o filme, eu já não via mais Catherine – qual delas quer que tenha sido – e também foi a última vez que vi a Belle de Jour.

Parece que, após aquele dia, no Bristol, ocorreu mais uma, a derradeira, transformação com Catherine, com as Catherines – e dessa vez eu pude pressentir o que estava por vir. Por algum motivo, a Catherine dos Desencontros, que faz tempo tinha assumido o destino das duas, voltou a se unir com a Catherine original. Entretanto, a simbiose não refez a minha Catherine e nem poderia fazê-lo. Sim, voltou a existir apenas uma Catherine. Acho que agora responde apenas pelo nome Desencontros, mas é difícil saber com certeza. Pois, tecnicamente falando, ela nem responde mais.

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hoje não fui na feira · Jodok / 2 ded di prosa
postado em 10/11/07

Jodok

Nada de novo nisso, uma vez que faz anos que não vou na feira do livro. Mas hoje, excepcionalmente, no sábado-de-véspera-de-fim-de-feira, quase fui.

Pra quem não sabe: a feira é onde todo mundo vai nessa época do ano. Todo mundo. Quem gosta de ler e quem não gosta, quem escreve e também quem não, quem é de Porto Alegre e quem não é, quem quer tomar um chopp ou apenas vender seu pastelzinho, quem se acha e também quem nem tanto… Só eu é que não vou. Com certeza que me enquadro em várias das categorias de pessoas que deveriam ir lá, mas não vou. E hoje quase fui.

A culpa toda foi dos Correios. Ou, talvez, do pacote de remédios que precisei enviar para abroad. Não importa. E eis que desço no Mercado e me vou ao Correio Central, ali na Siqueira Campos, flanqueado pela dita feira. Atrasado como sói acontecer, dez minutos para fechar.

Fechado.

Fixado à jalousie (que é como hoje vou designar erroneamente aquela porta metálica de correr vertical) dos Correios, quase à altura dos olhos de uma pessoa de estatura avantajada, um recado: (resumindo) hoje, neca-pau; dirija-se preferencialmente à agência dentro da Globo ou então à do shopping da Rua da Praia.

Na Globo já estive, 3 minutos atrás, para comprar a fita durex que deveria selar o pacote. Voilà. Então, ao shopping – um pouco mais próximo. Sete minutos. Não tenho escolha além de atravessar a feira.

Mesmo assim, não atravesso. Vou costeando-a “por detrás” e sigo pela Andradas, a passo acelerado. Na ida. Na volta venho dolente, o pacote já postado.

A dolência (quase malemolência, como diria o Gupta) me permite observar melhor os arredores. Vejo: à minha esquerda, as tendas da feira, me dando as costas educadamente; à direita, a concorrência direta – uma loja bem-sucedida chamada Bom & Barato (fica a cargo do leitor, como exercício prático, imaginar o teor do comentário que se instalou na minha mente nesse momento).

Bom, e para que não pensem somente coisas ruins a meu respeito, ressalto que contive o forte impulso de adernar à direita. Não seria justo.

Mas confesso que fiquei triste com uma coisa: a feira do livro é uma farsa, pelo menos no sábado-de-véspera-de-fim-de-feira, às 12h30. Até mesmo as moscas estavam escassas. E eu, achando que estaria desdenhando multidões…

Falando em multidões, dirigi-me ao segundo point de badalação ali do centro. Claro, o Mercado Público. Fui direto àquela banca que todo mundo (sim, as multidões) conhece por um número próximo do 40 e pela carga calórica que ali se consome sob a forma de nata, especialmente. Ainda não era a hora da nata e mandei ver outra opção junkie-calórica. E um café espresso grande, que derramei lenta e saborosamente sobre os meus pensamentos desajustados. Aos poucos, fui retornando ao meu estado niilista mais normalzinho e me senti melhor.

Aproveitei minha ida ao Mercado para comprar um pacotão de granola daqueles de quilo. Pensei: se os cafézes petrificam o trato digestivo e, especialmente, o emaranhado sistema tripóideo (“das tripa”), algo precisa ser feito para descongestioná-lo vez por outra. Mas não se exaltem, esse pacote vai durar um mês.

Por essas e outras, e por já ter dado por encerrada a minha não-ida à feira do livro, já ia eu na direção do meu ônibus, assoviando mentalmente algum antigo Schlager do STS, mas os discos usados me atraíram prum canto e acabei comprando aquele maravilhoso LP duplo A arte de Mercedes Sosa. As lembranças voaram até 1984, quando eu tinha esse disco – e, num dia não muito santo daquele ano, dei-o de presente pruma garotinha ruiva sem coração.

Se eu tivesse uma agulha boa na minha eletrola, eu teria colocado Mercedes Sosa assim que cheguei em casa. Gracias a la vida.

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ferrugem 2 · Jodok / 2 ded di prosa
postado em 15/10/07

Jodok

Pesquisei mais sobre a danada da ferrugem. Antes mesmo de chegar às folhas verdes – tema que tinha ficado pendente – me deparei com um suculento molho de ferrugem. O que será que este suculento molho vai aprontar com o nosso estômago? Será que vai fazer furos nele, de tal maneira que não poderemos guardar mais nada também no estômago?

Comeríamos uma rica gelatina de morango ou, melhor ainda, de framboesa, e a mesma se perderia dentro do nosso ser, sem ser totalmente digerida e sem ir até o intestino onde se transformaria em vitaminas frutuosas…

Vamos analisar a fórmula desse tal molho ferrugem (versão clássica). Fiz uma lista dos ingredientes em ordem alfabética:

bacon picado
caldo de carne
cebola picada (1 unidade)
cenoura pequena (1 unidade)
champinhon
colheres de chá (2 unidades)
colheres de sopa (11 unidades)
extrato de tomate
farinha de trigo
folha de louro
manteiga
pimenta do reino
sal
salsinha picada não muito fina
talo de salsão (1 unidade) – se usar salsão em talo, deverá trocar a ordem com a salsinha
tomate sem peles ou sementes (1 unidade)
xícaras (uma e meia unidades ou uma e dois quartos de unidade)

Eu diria que o consumidor deste molho deveria – por questões de segurança – separar para um lado os utensílios, como colheres de todos os tipos e xícaras (e não ingerí-los).

Não deverá, jamais, medir o sal com a pontinha de uma faca, como faziam as nossas mães e avós, pois a faca, apesar de apenas ser um utensílio – o que por si só a colocaria na lista dos não-ingeríveis – sujeita-se também às restrições quanto à idade de quem vai preparar o molho.

Sugere-se, portanto, que esse molho não deva ser feito por crianças. Mesmo que não se use faca nenhuma.

Depois, rotular como perigosos: a cebola, o bacon, a pimenta do reino e o sal.

O caldo de carne é duvidoso e os demais ingredientes são quase inóquos, desde que se pique bem a folha de louro.

*O último item do preparo do molho nos faz crer que este molho na verdade não vem sozinho – acompanha carnes de porco e boi, assadas ou grelhadas – o que faz com que tenhamos que fazer uma rigorosa triagem também desses ingredientes inicialmente não previstos. As regras devem ser as mesmas: separar os utensílios que houver, especialmente facas e garfos que costumam ser utilizados no contato íntimo com esses ingredientes,... etc., etc. Panelas também são utensílios e não devem ser servidas no molho.

Resta descobrir se esse molho poderá ser consumido debaixo de chuva.

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ferrugem · Jodok / 2 ded di prosa
postado em 15/10/07

Jodok

A ferrugem pode atacar muitas coisas. Em geral, coisas de metal. Mas também pode atacar folhas de plantas, no entanto isso me parece ser outro capítulo. O ruim da ferrugem é que ela ataca as coisas e faz furos nelas.

Existem furos bons, mas em geral esses furos aí são ruins. Se tem coisas dentro dessas coisas de metal, elas vão cair pelos furos. Se ainda não tem nada dentro, não acontece nada, mas assim que colocamos algo, volta a ocorrer o mesmo problema de antes – as coisas caem das coisas pelos furos que a ferrugem deixou nas coisas (se é que os furos são grandes para isso).

Imagina o que acontece se as coisas que colocamos também são de metal e não se cuidam: a ferrugem das outras também vai atacá-las e também nelas não podemos mais colocar coisas. Especialmente de metal (ou de folhas verdes, como já falamos antes).

Então, o que fazer? Envernizar as coisas e deixá-las longe da chuva. Todas as coisas. Porque nunca se sabe o que se precisa colocar dentro de que. As coisas não enferrujadas são sempre mais úteis. Melhor protegê-las.

Eu fico pensando o que seria se os ouvidos das pessoas fossem de metal. Com o tempo, elas enferrujariam e as nossas palavras cairiam para fora pelos furos da ferrugem. Se isso acontecesse antes de serem ouvidas, as palavras perderiam o sentido, certo?

Então as palavras teriam que ser sempre um pouco maiores que os furos de ferrugem nos ouvidos de metal. À medida em que a ferrugem vai aumentando, com o natural passar do tempo e a ganância da própria ferrugem, a gente teria que dizer palavras cada vez maiores – e acabaria dizendo só palavrões!

Que horrível, isso.

Uma vez eu tive um estojo de metal. Com o tempo (e a voragem da ferrugem) eu comecei a perder o seu conteúdo: primeiro os clipses, depois a borracha e finalmente os lápis. Bem no fim eu também perdi o estojo, mas isso eu não consigo entender, porque ele não estava dentro dele mesmo – e nem poderia… É possível que a ferrugem tenha comido todo meu estojo.

Conheço também caixas de correio de metal que foram praticamente dizimadas pelo problema já citado. As cartas, que deviam escorregar para dentro delas e lá ficar seguras até serem resgatadas, acabavam inicialmente se enforcando no furo do fundo e, em outra etapa, caíam direto para o chão, onde o orvalho e a chuva davam cabo delas. Por sorte, hoje se usa mais as caixas virtuais, que não enferrujam. Pelo menos, eu acho que não.

Como poderia, se nem chove dentro da internet?

Hummmm, se não chove na internet, também não deve ter orvalho e nem estrelinhas ou florzinhas de gêlo…
Não gostei disso. Que coisa mais sem-romantismo… Imagina: uma caixa de correspondência ininferrujável e sem perigo de perder as cartinhas – mas também sem gotinhas do orvalho refletindo o nascer do sol quando a destinatária vai abrí-la bem cedo da manhã...

Esse mundo está virado…

Acho que vou esconder umas sementinhas de ferrugem nos próximos emails que eu mandar poraí, por via das dúvidas…

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jogo bibliotecário · Jodok / 2 ded di prosa
postado em 12/10/07

Jodok

À direita: roupas, à esquerda: livros, acima: disquetes, cds, discos e badulaques diversos. Abaixo: revistas de eletrônica. Ao lado, perto do mouse, um dicionário Langenscheidts e outros livros de gramática alemã.

Fui, pois, à estante da esquerda. Seguindo rigorosamente as instruções recebidas por Clara.

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
Peguei-o: Gooberz, de Linda Goodman.

2ª) Abra-o na página 161;
Abri-o.

3ª) Procurar a 5ª frase completa;
Danou-se: nessa página só tem 4 frases completas.
(Bem feito! Esse livro nem é meu e nem sei como devolvê-lo ao seu verdadeiro dono)
—>Volta ao (1)

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
Peguei-o: Jim Knopf e Lucas, o Maquinista – Michael Ende.

2ª) Abra-o na página 161;
Abri-o.

3ª) Procurar a 5ª frase completa;
Danou-se outra vez: nessa página só tem uma ilustração e 1 frase completa.
“O gemido do vento era cheio de malícia.” Jeitosinha, essa frase, mas não vale.
—>Volta ao (1)

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
Peguei-o: Percorrendo as Cordilheiras – Karl May.
Edição nº 500, de 1940, da Editora Globo. Nhém-nhém.

2ª) Abra-o na página 161;
Abri-o. Cheiro de sebo.

3ª) Procurar a 5ª frase completa;
1, 2, 3, 4, 5: achei. Iúppy! Tem.

4ª) Postar essa frase em seu blog;
Lá vai:
Aí não poude conter-se mais.

5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
Não. Seria impossível escolher o melhor livro entre a montanha de livros que tem à esquerda.

6ª) Repassar para outros 5 blogs.
Hummm… acho que 5 não, mas tem ali o Blog dos amigos Clara, Adry, e Tski.







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