A ferrugem pode atacar muitas coisas. Em geral, coisas de metal. Mas também pode atacar folhas de plantas, no entanto isso me parece ser outro capítulo. O ruim da ferrugem é que ela ataca as coisas e faz furos nelas.
Existem furos bons, mas em geral esses furos aí são ruins. Se tem coisas dentro dessas coisas de metal, elas vão cair pelos furos. Se ainda não tem nada dentro, não acontece nada, mas assim que colocamos algo, volta a ocorrer o mesmo problema de antes – as coisas caem das coisas pelos furos que a ferrugem deixou nas coisas (se é que os furos são grandes para isso).
Imagina o que acontece se as coisas que colocamos também são de metal e não se cuidam: a ferrugem das outras também vai atacá-las e também nelas não podemos mais colocar coisas. Especialmente de metal (ou de folhas verdes, como já falamos antes).
Então, o que fazer? Envernizar as coisas e deixá-las longe da chuva. Todas as coisas. Porque nunca se sabe o que se precisa colocar dentro de que. As coisas não enferrujadas são sempre mais úteis. Melhor protegê-las.
Eu fico pensando o que seria se os ouvidos das pessoas fossem de metal. Com o tempo, elas enferrujariam e as nossas palavras cairiam para fora pelos furos da ferrugem. Se isso acontecesse antes de serem ouvidas, as palavras perderiam o sentido, certo?
Então as palavras teriam que ser sempre um pouco maiores que os furos de ferrugem nos ouvidos de metal. À medida em que a ferrugem vai aumentando, com o natural passar do tempo e a ganância da própria ferrugem, a gente teria que dizer palavras cada vez maiores – e acabaria dizendo só palavrões!
Que horrível, isso.
Uma vez eu tive um estojo de metal. Com o tempo (e a voragem da ferrugem) eu comecei a perder o seu conteúdo: primeiro os clipses, depois a borracha e finalmente os lápis. Bem no fim eu também perdi o estojo, mas isso eu não consigo entender, porque ele não estava dentro dele mesmo – e nem poderia… É possível que a ferrugem tenha comido todo meu estojo.
Conheço também caixas de correio de metal que foram praticamente dizimadas pelo problema já citado. As cartas, que deviam escorregar para dentro delas e lá ficar seguras até serem resgatadas, acabavam inicialmente se enforcando no furo do fundo e, em outra etapa, caíam direto para o chão, onde o orvalho e a chuva davam cabo delas. Por sorte, hoje se usa mais as caixas virtuais, que não enferrujam. Pelo menos, eu acho que não.
Como poderia, se nem chove dentro da internet?
Hummmm, se não chove na internet, também não deve ter orvalho e nem estrelinhas ou florzinhas de gêlo…
Não gostei disso. Que coisa mais sem-romantismo… Imagina: uma caixa de correspondência ininferrujável e sem perigo de perder as cartinhas – mas também sem gotinhas do orvalho refletindo o nascer do sol quando a destinatária vai abrí-la bem cedo da manhã...
Esse mundo está virado…
Acho que vou esconder umas sementinhas de ferrugem nos próximos emails que eu mandar poraí, por via das dúvidas…