. T e x x t u s #

Português (br)

Deutsch

English




09536



Clara

Adry

Tski

Samara

Go to content Go to navigation Go to search

hoje não fui na feira · Jodok / 2 ded di prosa
postado em 10/11/07 04:03 PM

Jodok

Nada de novo nisso, uma vez que faz anos que não vou na feira do livro. Mas hoje, excepcionalmente, no sábado-de-véspera-de-fim-de-feira, quase fui.

Pra quem não sabe: a feira é onde todo mundo vai nessa época do ano. Todo mundo. Quem gosta de ler e quem não gosta, quem escreve e também quem não, quem é de Porto Alegre e quem não é, quem quer tomar um chopp ou apenas vender seu pastelzinho, quem se acha e também quem nem tanto… Só eu é que não vou. Com certeza que me enquadro em várias das categorias de pessoas que deveriam ir lá, mas não vou. E hoje quase fui.

A culpa toda foi dos Correios. Ou, talvez, do pacote de remédios que precisei enviar para abroad. Não importa. E eis que desço no Mercado e me vou ao Correio Central, ali na Siqueira Campos, flanqueado pela dita feira. Atrasado como sói acontecer, dez minutos para fechar.

Fechado.

Fixado à jalousie (que é como hoje vou designar erroneamente aquela porta metálica de correr vertical) dos Correios, quase à altura dos olhos de uma pessoa de estatura avantajada, um recado: (resumindo) hoje, neca-pau; dirija-se preferencialmente à agência dentro da Globo ou então à do shopping da Rua da Praia.

Na Globo já estive, 3 minutos atrás, para comprar a fita durex que deveria selar o pacote. Voilà. Então, ao shopping – um pouco mais próximo. Sete minutos. Não tenho escolha além de atravessar a feira.

Mesmo assim, não atravesso. Vou costeando-a “por detrás” e sigo pela Andradas, a passo acelerado. Na ida. Na volta venho dolente, o pacote já postado.

A dolência (quase malemolência, como diria o Gupta) me permite observar melhor os arredores. Vejo: à minha esquerda, as tendas da feira, me dando as costas educadamente; à direita, a concorrência direta – uma loja bem-sucedida chamada Bom & Barato (fica a cargo do leitor, como exercício prático, imaginar o teor do comentário que se instalou na minha mente nesse momento).

Bom, e para que não pensem somente coisas ruins a meu respeito, ressalto que contive o forte impulso de adernar à direita. Não seria justo.

Mas confesso que fiquei triste com uma coisa: a feira do livro é uma farsa, pelo menos no sábado-de-véspera-de-fim-de-feira, às 12h30. Até mesmo as moscas estavam escassas. E eu, achando que estaria desdenhando multidões…

Falando em multidões, dirigi-me ao segundo point de badalação ali do centro. Claro, o Mercado Público. Fui direto àquela banca que todo mundo (sim, as multidões) conhece por um número próximo do 40 e pela carga calórica que ali se consome sob a forma de nata, especialmente. Ainda não era a hora da nata e mandei ver outra opção junkie-calórica. E um café espresso grande, que derramei lenta e saborosamente sobre os meus pensamentos desajustados. Aos poucos, fui retornando ao meu estado niilista mais normalzinho e me senti melhor.

Aproveitei minha ida ao Mercado para comprar um pacotão de granola daqueles de quilo. Pensei: se os cafézes petrificam o trato digestivo e, especialmente, o emaranhado sistema tripóideo (“das tripa”), algo precisa ser feito para descongestioná-lo vez por outra. Mas não se exaltem, esse pacote vai durar um mês.

Por essas e outras, e por já ter dado por encerrada a minha não-ida à feira do livro, já ia eu na direção do meu ônibus, assoviando mentalmente algum antigo Schlager do STS, mas os discos usados me atraíram prum canto e acabei comprando aquele maravilhoso LP duplo A arte de Mercedes Sosa. As lembranças voaram até 1984, quando eu tinha esse disco – e, num dia não muito santo daquele ano, dei-o de presente pruma garotinha ruiva sem coração.

Se eu tivesse uma agulha boa na minha eletrola, eu teria colocado Mercedes Sosa assim que cheguei em casa. Gracias a la vida.

Comente! [1]

as pernas da Úrsula · Jodok / Jodok
postado em 01/11/07 12:42 PM

Jodok

Já faz um tempão que uma grande amiga minha – a Claudia - se tornou escritora e depois publicou “As pernas de Úrsula”.

Intrigado com o título, tentei imaginar o que haveria do lado de dentro (do livro). Várias possibilidades me ocorreram e resolvi, antes mesmo de pegar o livro nas mãos e ser abalroado pela ilustração da capa, escrever sobre essas situações que o título me suscitavam.

Comecei a escrever a minha versão autobiográfica da história das pernas da Úrsula. Meu projeto era escrever uma série de contos curtos, depois disso ler o livro da Claudia e, finalmente, escrever outra série de capítulos pós-contato.

Aproveitando o plagismo assumido e escancarado do meu projeto, decidi também plagiar vários daqueles outros senhores da minha estante, e assim vamos reconhecer (espero) Cortázar, Scorza, Llosa e outros que nem sei.

Não preciso dizer que o projeto ainda não andou mais que uns poucos capítulos – esses librianos…

Estou publicando aqui os capítulos que vão ficando prontos, na expectativa de que ele possa ser retomado e de que algum dia eu possa enfim ler esse e os outros livros da Claudia.


Capítulo 1 – todos

Capítulo 2 – lotação

Capítulo 3 – a triste paixão segundo RM

Capítulo 4 – pobre Alphonsus

Capítulo 5 – (no prelo)

Capítulo 6 – pausa epistemológica

Capítulo 7 – carta-milonga à Úrsula

Capítulo 8 – (no prelo)
—————-

Inspirações






1 – todos


Úrsula AndressTodos amávamos Úrsula, especialmente pelo rico par de pernas que Deus lhe havia dado de presente. Pernas esguias, deliciosas, que acendiam todas as luzes do nosso bairro quando passavam.

Pernas oliudianas, que viviam projetadas nas matinês da nossa imaginação. Mesmo que tivéssemos que optar entre uma Kim Novak e uma Gina Lollobrigida, por exemplo – certamente ficaríamos com Úrsula.

Mas éramos pirralhos naquela época e Úrsula jamais olhou para qualquer um de nós. Nos trocou, por assim dizer, por caras como John, James, Elvis, Sean e Marlon. Sim, ela tinha uma queda por esses nomes americaninhos.

Até hoje nos reunimos de vez em quando e discutimos o que fazer por Úrsula. Porque alguma coisa tem que ser feita. Aquelas pernas merecem estar numa disputa de Oscar, são um longa metragem em si.

Semana que vem vamos falar com o Werner, colega nosso dos tempos de colégio e que faz filmes.

Desconfiamos que ele também seja um amante de Úrsula e que a coloque definitivamente onde tem que estar.

voltar ao índice





2 – lotação


Assim que atravessou a rua, reparou nela. Imóvel no ponto do lotação. Estacou, atordoado por uma estranha sensação de tristeza. Vinha dela, com toda certeza, mas não de seu rosto ou da expressão dos olhos. Era como se fosse uma fragrância, “a falar dela pela rua”.

Absorta, ela não percebeu sua presença. Mas naquele dia ele apenas tomou a decisão de estudá-la. No outro, mesmo horário, a aguardou e tomou o mesmo lotação. Do fundo, viu, prazeroso, como sua costumeira imobilidade no ponto era imediatamente substituída por um vivaz folhear de revistas, conversas ao celular ou simplesmente um atento observar do movimento na rua, a ponta do pé delicadamente seguindo o compasso de alguma canção.

Quando descia, um dia aqui, outro ali, os passos eram vigorosos e até alegres. Um dia ele pôde ver um minúsculo U tatuado em seu pulso esquerdo. Gostou.

Reparou, assombrado, como as pernas desta mulher eram o motor de tudo. Seu humor, a auto-estima, o equilíbrio, mesmo a feminilidade – todo seu ser de alguma forma respirava no exato ritmo do movimento de suas pernas.


Quando ele lhe ofereceu um cigarro ela baixou os olhos. Sob a mesa, fez um movimento quase imperceptível com as mãos, como se quisesse afagar as próprias pernas, mas se deteve, a poucos milímetros da pele. Lentamente voltou a fitá-lo, agora com uma expressão de desalento, quase infantil. “Preciso ir”, disse.

...


Eduardo, que nome mais sem graça, pensou ela. Tinha reparado na aliança logo no primeiro dia. Chocada com a facilidade com que ele captara seu astral naquele tedioso ponto de lotação, pensou em se esconder, se proteger. Depois, decidiu correr o risco e ajeitou seus horários para poder estar no ponto sempre na mesma hora. E agora, essa…

Tinha certeza que não era só Eduardo, mais provável que fosse Carlos Eduardo. Aí, era demais.

Levantou os olhos. “Preciso ir.”

voltar ao índice





3 – a triste paixão segundo RM

Sumário:

Cap. I – Já neste capítulo o desavisado leitor verá surgir o garboso senhor Dieter Malinek, que exala o cheiro de aventuras vividas nos quatro cantos do mundo e se diz jornalista
Cap. II – Se o senhor Dieter se chamasse Jean-Luc, poderia ser publicitário, mas isto só será compreendido mais adiante
Cap. III – Rita Pavone toma Icecream com soda
Cap. IV – O incauto RM vê, apreensivo, as pernas de Ulla amolecerem sob a voz do senhor Dieter
Cap. V – Finalmente o tradutor interrompe o relato para explicar que Ulla, neste caso específico, não é diminutivo de Ulrike, mas de Ursula, detalhe que RM não fez questão de esclarecer
Cap. VI – Aqui o leitor desconfia que os causos do senhor Dieter sobre Mares do sul, Triângulo das Bermudas e Machupichu são, na verdade, artifícios matemáticos
Cap. VI.a – Paralelamente, e por isso narrado no mesmo capítulo, o leitor observa Jean-Luc, o publicitário, utilizando artifícios matemáticos semelhantes com Suzanne
Cap. VI.b – O mesmo e esperto leitor entenderá que 171, por ser um palindromo, é igual a 171
Cap. VII – Onde o garboso senhor Dieter continua, e cada vez mais, a ser o centro das atenções
Cap. VIII – Ulla baixa os olhos e sob a mesa faz um gesto indefinido
Cap. IX – Em que o leitor não verá RM empalidecer, mas compreenderá seu silencioso lamento
Cap. X – Capítulo que não precisaria ser escrito, se não houvesse a súbita necessidade de palavras
Cap. XI – Resignado, RM observa o que aconteceu no capítulo anterior e diz coisas – agora, sim – desnecessárias
Cap. XII – RM conta o tempo. Ou, melhor, não conta
Cap. XIII – Aqui o leitor é colocado frente a frente com o reservado sr. prefeito, que conhece o paradeiro de Ulla, não se sabendo exatamente como
Cap. XIV – Mais uma vez o relato é interrompido, desta vez para advertir o desatento leitor que talvez nem para Ulla esta seja uma história feliz
Cap. XV – RM se recorda que naquele tempo tinha espinhas na cara
Cap. XVI – Após estes rodeios, RM explica que – ao que consta – Ulla nunca foi para Machupichu ou Bora-Bora ou as Bermudas
Cap. XVII – No qual RM não deseja contar o resto da história e diz que precisa ir
Cap. XVIII – Por sorte o normalmente reservado sr. prefeito nos explica que a senhorita Ursula é agora dona de um bar menos chique do que o intrigado leitor desejaria
Cap. IX – Neste penúltimo capítulo o curioso leitor ouvirá da própria senhorita Ursula histórias sobre ilhas distantes e também sobre um tal senhor Dieter Malinek, que conhecia o mundo todo e se dizia jornalista
Cap. XX – Nestas linhas finais da triste paixão segundo RM, o comovido leitor poderá decidir se RM consta ou não das reminescências da senhorita Ursula

“A chaque fête, à chaque bal, nous étions trois.
D’abord Suzanne et moi l’emmenions à la danse
Et puis enfin, Suzanne et lui, m’emmenaient, moi !”(RM)

voltar ao índice





4 – pobre Alphonsus


Duchesse de Brabant Frater Alphonsus partiu deste mundo da mesma forma como veio, pensou o prior ao ver o puído hábito cuidadosamente dobrado junto à cabeceira do catre. O corpo de Alphonsus ainda estava intocado, encolhido dentro do nicho que enquadrava a minúscula janela do claustro. Uns fugazes raios de sol delataram o prolongado descuido com a saúde – constantes acessos de tosse e fadiga que nos últimos anos haviam perturbado o irmão, que Deus o tenha, deveriam ter servido de alerta. Pela primeira vez o prior pode observar esse corpo, agora tristemente definhado e roto. Pobre Alphonsus, suspirou.

Aproximou-se da janela. As roseiras em flor, esta deve ter sido a última visão do frade, tão abnegado às lides da jardinagem quanto às sacerdotais. Era inegável que as roseiras da Abadia de Rochefort deviam seu viço e graça às hábeis e carinhosas mãos do irmão Alphonsus, que diariamente, após a leitura dos Evangelhos, as regava e cuidava.

Muito cedo, ainda sob a tutela do pai, frade Alphonsus aprendera tudo sobre o cultivo das rosideae. Sabia como ninguém reconhecer e combater ferozmente o mofo-branco e o mofo-cinzento. Tornou-se um implacável exterminador dos pulgões, dos ácaros e das formigas cortadeiras. Sob suas mãos zelosas vicejavam as perfumadas Cardeal de Richelieu, de cor púrpura, e as Príncipe Negro, que mais tarde se difundiriam por toda a Europa. Mas frade Alphonsus demonstrava uma verdadeira predileção pela graciosa Duchesse de Brabant, o que o levava a percorrer regularmente todo o condado em busca de novas cultivares. E foi uma destas peregrinações que mudou decisiva e definitivamente o destino de Alphonsus.

Esquecidos manuscritos do monge agostiniano Mendel sobre a Rosa alba, que Alphonsus resgatara por algumas moedas de prata na biblioteca monástica de Brünn, conduziram-no, num gélido dia de abril, ao convento de Yorkheim.

Antes mesmo de fazer soar a sineta de bronze que anunciaria a chegada do visitante, Alphonsus se deteve. Sentiu-se acolhido por um suave mas confortante aroma de uma flor muito especial – a sua Duchesse! Esgueirou-se por entre a espessa vegetação que qual alameda o levaria ao pesado portão principal do convento e, deixando-se guiar apenas por uma estranha sensação de leveza corpórea, alcançou uma pequena videira junto à muralha leste, cujo portão, entreaberto, dava acesso a uma bem-cuidada horta, cercada de imponentes roseiras.

Cerrou os olhos e inspirou profundamente aquele perfume. Permaneceu assim, imóvel, quase enternecido, por muito tempo. O que despertou o frade foi uma presença, uma sombra, mais que um movimento. Uma grande borboleta azul-turquesa alçara lânguido vôo no momento em que irmã Úrsula cruzou o portãozinho de ferro. Ao se deparar com a inesperada figura do frade, estacou e enrubesceu levemente. Depois se aproximou, vagarosamente, para cumprimentar o desconhecido.

Por alguns instantes Alphonsus teve a impressão de estar observando ao mesmo tempo as garbosas rosas, que agora estavam às suas costas, e o movimento da irmã, que caminhava – não: flutuava – em sua direção, lembrando a borboleta que o havia despertado há pouco. Um anjo, pensou alvoroçado.

A paixão que irmã Úrsula de imediato despertou no frade foi ainda mais intensa do que aquela que a mais perfeita das Duchesse de Brabant poderia provocar. De volta ao seu catre, Alphonsus sonhou por três noites seguidas com uma borboleta de longo hábito azul e sorriso angelical.

voltar ao índice





6 – pausa epistemológica


Nesse momento do projeto, comecei a ter dificuldades. Esgotaram-se as Úrsulas próximas e distantes e nem tinha completado a meia dúzia – nem a pau e corda, como se diz.

Ah, se eu tivesse partido de um livro mais propício, como por exemplo Ursulas Beine und andere Möglichkeiten... Poderia, também, ter aguardado a edição multilígue, mas acho que agora é tarde e, além disso, mesmo a versão em inglês Ursula´s legs and other Possibilities não passa de uma referência na coluna da direita.

Nossa pausa epistemológica (a momentary lapse of reason), então, vai tratar da questão “Quem conhece Úrsulas?” Quero mais que seis, oras.

Sei de um cara Gooooo… quero dizer: gordo, que conhece quase todo mundo. Coloquei-lhe a questão. Ainda bem que ele é muito rápido e prestativo.

“Ursula”, ele me disse após 0,19 segundos, “Ursula, assim sem acento no U, são umas 23.100.000”.

Putisgrila, pensei, dá-lhe Ursula! E eu aqui, conhecendo tão poucas.

“Úrsula”, continuou o gordão (0,30 segundos), “Úrsula, assim com acentinho agudo no U, 22.900.000”. Isso ainda é Úrsula pra dedéu!

Aproveitemos o dileto gordo-bem-informado, e vamos direto ao queijo da questão. As pernas, seu bolha, as pernas!

“OK”, disse-me ele prolixamente, “tem 36.500 neguinhos falando disso, mas…”

Não gostei desse “mas…”, espichado e carregado daquele sotaque gauchês bonfiniano mãããããs…

“Mãããs”, caçoou ele, “em se tratando de pernas que são de Úrsulas, restam 435. E olhe que contei mais de uma vez”.

“Em se tratando” é o que há... Bom, isso ainda é mais de seis. Um pouco mais.

Percebi que o gordo continuava me olhando, com um sorrisinho no canto do olho. Aiaiai. Aí tem. Tu não me vem de borzeguins ao leito! Sim. Fui rude com ele.

“Bom”, admitiu ele, “se descontarmos as Úrsulas da Claudia, sobram 2. Isso, contando as tuas 5”.

...

Não acredito: ele riu de mim!

Mas, enfim, danou-se! Onde teriam ido tantas Úrsulas – aquelas bilhares? Por que por que por que ninguém falava das pernas delas? Lembrei que perto de casa tem um colégio chamado Santa Úrsula… essa certamente tinha ralado com as minhas estatísticas. O gordo riu outra vez, satisfeito.

voltar ao índice





7 – carta-milonga à Úrsula


se um dia cruzares meus rumos
de dires e venires tanto
verás alpargatas, poeira
meu rastro perdido num canto.
– apenas isso encontrarás
– mas a mim nunca jamais.
– a mim nunca jamais

se chegares até minha casa
subindo a rua, à direita
a mesa estará bem posta
um fogo, uma cama estreita.
– sim, isso tudo encontrarás
– mas a mim nunca jamais.
– a mim nunca jamais

se procurares mis coplas
rascunhos, rabiscos, tormentos
terás de guia as madrugadas
as nuvens e os quatro ventos.
– e apenas isso encontrarás
– mas a mim nunca jamais.
– mas a mim
– nunca jamais

voltar ao índice





Inspirações


todos
. Queremos tanto a Glenda – Julio Cortazar
. Ursula Andress
. Werner Schünemann (2° grau)

lotação
. 4° motivo da rosa – Cecília Meireles

a triste paixão segundo RM
. A paixão segundo G.H. – Clarice Lispector
. Dieter Malinek, Ulla und ich – Reinhard Mey
. Jean-Luc, Suzanne et Moi – Reinhard Mey
. Reihard Mey
. A dança imóvel – Manuel Scorza

pobre Alphonsus
. A abadia dos beneditinos – J. W. Rochester
. A catedral – Alphonsus de Guimarães
. Tia Julia e o escrivinhador – Mario Vargas Llosa

pausa epistemológica
. A momentary lapse of reason – Pink Floyd
. Google search engine

carta-milonga à Úrsula
. De tanto dir y venir – Atahualpa Yupanqui
. Nunca jamás – Atahualpa Yupanqui

voltar ao índice



Comente!

roteiro (para não esquecer) · Jodok / Jodok
postado em 23/10/07 02:39 AM

Jodok

São poucas as coisas:

– um gato
– um senhor
– um computador
– uma TV
– um sofá para ambos
– uma xícara que pode ser eventualmente reabastecida
em algum lugar-cozinha
– deve haver, de alguma maneira, uma webcam
– ah, e um cachimbo, um pijama e chinelos ou pantufas
– não, nada de pijama
– óculos (por que será?)
– fumaça, para o cachimbo, mas não sempre
– para eliminar pela raiz qualquer possível discórdia, fica
definido desde já que o sofá também poderá ser utilizado
pelo senhor ou pelo gato. Não vou escrever “um sofá para
todos”, porque isso aqui não é um cortiço e nem um pau-de-arara
– por fim, uma tigelinha só para o gato…





















Como podemos ver de imediato, não são tão poucas as coisas – especialmente para um ambiente 3X4 ou 9X16. Lugar tão pequeno, que a webcam nem precisa ser mexida.

Não foi mencionado, mais por ser opcional, um quadro grande e confuso, para ser apreciado pelo gato em momentos de grande tensão. O senhor, dono desse ambiente, não se lembra de onde surgiu o quadro. Por ser opcional, talvez não valha a pena perscrutar a memória; ainda nem sabemos se haverá ou se jamais houve esse quadro.

A cor do gato é outra incógnita, tavez exista apenas o seu contorno lânguido (sim: a languidez é pra valer). Seria tão mais fácil não pensar em cores ou texturas para nada. Outra coisa que será lânguida é a fumaça para o cachimbo, sempre que a houver.

Agora, falta apenas um nome-de-gato para escrever na tigelinha e estará pronto o nosso roteiro preliminar.

Comente! [1]

quietude · Jodok / partidas
postado em 23/10/07 02:11 AM

Jodok

de ´Borboletas´, de Alcir CostaAs palavras que eu quis ouvir
tu nunca as disseste
e nem nunca dirás…
Esperei,
também qieto
e atordoado.
Hoje sei,
que esse teu silêncio

me sorri de longe.
E está bem, assim.

Comente! [1]

ferrugem 2 · Jodok / 2 ded di prosa
postado em 15/10/07 03:19 PM

Jodok

Pesquisei mais sobre a danada da ferrugem. Antes mesmo de chegar às folhas verdes – tema que tinha ficado pendente – me deparei com um suculento molho de ferrugem. O que será que este suculento molho vai aprontar com o nosso estômago? Será que vai fazer furos nele, de tal maneira que não poderemos guardar mais nada também no estômago?

Comeríamos uma rica gelatina de morango ou, melhor ainda, de framboesa, e a mesma se perderia dentro do nosso ser, sem ser totalmente digerida e sem ir até o intestino onde se transformaria em vitaminas frutuosas…

Vamos analisar a fórmula desse tal molho ferrugem (versão clássica). Fiz uma lista dos ingredientes em ordem alfabética:

bacon picado
caldo de carne
cebola picada (1 unidade)
cenoura pequena (1 unidade)
champinhon
colheres de chá (2 unidades)
colheres de sopa (11 unidades)
extrato de tomate
farinha de trigo
folha de louro
manteiga
pimenta do reino
sal
salsinha picada não muito fina
talo de salsão (1 unidade) – se usar salsão em talo, deverá trocar a ordem com a salsinha
tomate sem peles ou sementes (1 unidade)
xícaras (uma e meia unidades ou uma e dois quartos de unidade)

Eu diria que o consumidor deste molho deveria – por questões de segurança – separar para um lado os utensílios, como colheres de todos os tipos e xícaras (e não ingerí-los).

Não deverá, jamais, medir o sal com a pontinha de uma faca, como faziam as nossas mães e avós, pois a faca, apesar de apenas ser um utensílio – o que por si só a colocaria na lista dos não-ingeríveis – sujeita-se também às restrições quanto à idade de quem vai preparar o molho.

Sugere-se, portanto, que esse molho não deva ser feito por crianças. Mesmo que não se use faca nenhuma.

Depois, rotular como perigosos: a cebola, o bacon, a pimenta do reino e o sal.

O caldo de carne é duvidoso e os demais ingredientes são quase inóquos, desde que se pique bem a folha de louro.

*O último item do preparo do molho nos faz crer que este molho na verdade não vem sozinho – acompanha carnes de porco e boi, assadas ou grelhadas – o que faz com que tenhamos que fazer uma rigorosa triagem também desses ingredientes inicialmente não previstos. As regras devem ser as mesmas: separar os utensílios que houver, especialmente facas e garfos que costumam ser utilizados no contato íntimo com esses ingredientes,... etc., etc. Panelas também são utensílios e não devem ser servidas no molho.

Resta descobrir se esse molho poderá ser consumido debaixo de chuva.

Comente!

Mais antigos. . Mais recentes