Tenho correspondência com uma jovem escritora nordestina que vive no Rio e jamais pisou em terras do Rio Grande. Recusa visitar-nos porque - escreve ela - "vocês os gaúchos são acastelhanados, parecem pertencer mais à órbita platina do que à brasileira: fanfarrões, autoritários, teatrais, portam-se como se possuíssem o monopólio da coragem".
Senhorita, agora escute. O comportamento humano é simbólico. Vivemos num universo de palavras. De palavras são feitos os mitos e preconceitos de acordo com os quais pautamos nossas ações, atitudes e até o nosso gosto. Mas veja bem: a palavra não é a coisa ou a pessoa que ela designa, assim como o mapa não é o território que representa. Se você queimar um mapa do Rio Grande, este pedaço do Brasil seguirá existindo, pois não é obra dum cartógrafo mancomunado com uma casa impressora, mas parte do cosmo, criação, digamos, de Deus (por favor, não entremos em discussões teológicas) e nesta altura dos acontecimentos já um produto ou, melhor, um adiantado processo histórico. Resigne-se, portanto, à idéia irremediável de nossa existência e tente compreender-nos, se não puder querer-nos bem.
Somos uma fronteira. No século XVIII, quando soldados de Portugal e Espanha disputavam a posse definitiva deste então "imenso deserto", tivemos de fazer a nossa opção: ficar com os portugueses ou com os castelhanos. Pagamos um pesado tributo de sofrimento e sangue para continuar deste lado da fronteira meridional do Brasil. Como pode você acusar-nos de espanholismo? Fomos desde os tempos coloniais até ao fim do século um território cronicamente conflagrado. Em setenta e sete anos, tivemos doze conflitos armados, contadas as revoluções. Vivíamos permanentemente em pé de guerra. Nossas mulheres raramente despiam o luto. Pense nas duras atividades da vida campeira - laçar, domar e marcar potros, conduzir tropas, sair para a faina diária quebrando a geada nas madrugadas de inverno - e você compreenderá por que a virilidade passou a ser a qualidade mais exigida e apreciada do gaúcho. Esse tipo de vida é responsável pelas tendências impetuosas que ficaram no inconsciente coletivo deste povo, e explica a nossa rudeza, a nossa às vezes desconcertante franqueza, o nosso hábito de falar alto, como quem grita ordens, dando não raro aos outros a impressão de que vivemos numa permanente carga de cavalaria. A verdade, porém, é que nenhum dos heróis autênticos do Rio Grande que conheci jamais "proseou", jamais se gabou de qualquer ato de bravura seu. Os meus coestaduanos que, depois da vitória da Revolução de 1930, se tocaram para o Rio, fantasiados, e amarraram seus cavalos no obelisco da Avenida Rio Branco - esses não eram gaúchos legítimos, mas paródias de opereta.
Os castelhanismos que por ventura existam no nosso linguajar justificam-se pela proximidade da Argentina e do Uruguai. Não há no mundo, que eu saiba, fronteira estanque. E se vamos continuar o capítulo dos estrangeirismos, chamarei a sua atenção para o uso de termos como hey, hi, ciao, bye-bye e outros que se insinuaram na língua corrente brasileira nestes últimos vinte anos e que na minha opinião têm muito menos "legitimidade" que os nossos castelhanismos. Quanto a estes, posso informar-lhe que os buenas, os chê, os a Ia fresca e quejandos já desapareceram praticamente do português do Rio Grande do Sul, sendo hoje usados apenas por aqueles que, bovaristicamente, querem afirmar o seu "gauchismo festivo".
Afinal de contas, que é um gaúcho? Um sujeito branquíssimo e louro chamado Schultz? Aquele senhor corpulento e corado, que atende ao nome de Carotenuto? Ou será aquele outro de apelido luso e cara indiática como o autor deste artigo? Porque o Rio Grande do Sul é talvez o mais sortido cadinho racial do Brasil. Neste verde "caldeirão" onde em remotas eras vagueavam várias tribos de índios, os primeiros povoadores puseram a ferver a rústica e honrada açorda açoriana, à qual se acrescentaram elementos vindos de outros pontos do Brasil. A sopa foi temperada com ervas inciígenas e africanas; mais tarde lançaram-se nela um pouco de repolho germânico e condimentos como a manjerona italiana e outras especiarias vindas não só da Europa como até mesmo do Oriente próximo e remoto. Qual vai ser o aspecto e o "gosto" dessa mirabolante mistura? Isso será coisa apenas para os olhos e o paladar do futuro.
Existe uma expressão gaúcha - "dar nomes aos bois" - que exprime nosso desejo de sinceridade e clareza. Eu não lhe peço, minha amiga, que dê nome aos "bois", mas que venha vê-los no seu campo. Considere-se, pois, convidada a visitar o Rio Grande do Sul, onde serei o seu anfitrião e o seu guia.
Suponhamos que você escolheu abril para a sua viagem, e vem de ônibus, a fim de melhor apreciar a geografia física e humana dos estados que vai percorrer… Antes de entrar no território do Rio Grande a sua viatura atravessará uma ponte sobre o rio Pelotas, passando a rodar através duma região montanhosa de belos e graves verdes, de cerrados pinheiros entremeados de outras árvores que minha ignorância de botânica me impede de nomear. E, cingindo morros e montes, a estrada no seu desce-sobe-coleia lhe parecerá um tobogã. Você dirá que tem a impressão de estar dentro duma estampa européia. Eu lhe replicarei que não temos culpa disso, pois compramos a nossa paisagem já pronta, sem discutir pormenores. O ônibus chega a uma culminância, você avista da janela do carro um rio a correr manso lá embaixo, no fundo duma garganta, cortando um vale de verde e macia relva, onde aqui e ali aponta uma casinhola de colono. O quadro lhe dá uma grande sensação de silêncio e paz, e se a minha amiga não confessa que este é um dos mais belos cenários naturais que viu em toda a sua vida, é porque seu antigauchismo inclui também nossa geografia física.
Deixamos para trás o vale do rio das Antas, uma de nossas mais valiosas "reservas turísticas". Estonteada de tantas voltas, já meio intoxicada de clorofila, você deixa pender a cabeça e cochila… Quando torna a abrir os olhos, a paisagem mudou… Para trás ficaram cerros, montes e vales. Estamos nas planuras de Cima da Serra. A vegetação agora é mais clara, com um leve toque de pardo. Pinheiros altos na forma de taças, como os do Paraná e Santa Catarina, surgem a espaços, isolados ou formando bosquetes. Cercas baixas de pedra perlongam largos trechos da estrada. Aparecem as primeiras casas de granjas e estâncias, e o primeiro gado. Você nota algo de "diferente" nestas paragens. Explico. Primeiro é a doce limpidez do ar. Encontramo-nos a uns mil metros acima do nível do Atlântico. Depois, a luz. Estamos no outono, pois o Rio Grande se dá ao luxo de ter quatro estações distintas. A luz nesta época é um mel, e adivinham-se na paisagem vagos tons violáceos que se acentuam nas sombras e nas distâncias. Outra coisa excepcional aqui é o céu, dum azul puro e profundo, muito parecido com o da Europa meridional.
Lá vem um gaúcho montado no seu cavalo. Prepare-se para uma decepção. A montaria é pequena, os arreios modestos, e o cavaleiro um homem de aspecto prosaico. Sua indumentária lhe parecerá triste em seus tons de cinza e pardo. Nada de esporas de prata, botas luzidias, bombachas largas e flamantes. Mas eu lhe garanto que esse gaúcho pobre é autêntico. Enxuto de carnes e de fala, reservado, avesso ao teatralismo, lá se vai ele ao trote do ca alo, pitando seu grosso cigarro de palha. Não gosta de brigar, mas "peleia" bem, quando provocado. Seu humor é escasso e seco. Bom sujeito, fique certa disso.
Como esta é uma viagem imaginária, mando parar o ônibus e, num passe de magia, conjuro um automóvel. (Escolha a marca!) "Quebrando o braço esquerdo" - como se diz por aqui - o carro nos levará até a mais dramática das paisagens deste extremo sul do Brasil. Estamos agora no alto dos "Aparados", o ponto em que o planalto termina abruptamente num precipício vertical, cuja altitude em certos pontos vai além de um quilômetro. (Para que cósmico banquete terão cortado tão grossa fatia desse rijo bolo basáltico?) Vejo que você está meio estonteada… Olhe para o lado do nascente e poderá avistar a linha clara das praias do Atlântico. Está vendo aqueles três penhascos escuros coroados de verde que avançam para o mar e que lembram torres? Eles dão nome a uma das mais belas praias do Brasil, onde espécimes da elegante fauna do café society de Porto Alegre - a que um cronista malicioso chamou Nescafé society - costumam passar os verões… Ao sul de Torres, a espaços, encontraremos balneários como Atlântida, Xangri-lá e Cidreira, ou como Capão da Canoa e Tramandaí, que são já verdadeiras cidades. Quero mostrar-lhe agora o Taimbezinho. O diminutivo diz pouco ou nada desta impressionante fantasia da natureza: um corte largo e profundo na rocha do planalto pôs duas escarpas a se defrontarem empinadas, formando um canhadão abismal, em parte nu e em parte forrado de vegetação, a pedra a mudar de cor - aço, azul, violeta, laranja, rosa - de acordo com o movimento do sol e a qualidade de sua luz. Não me diga que a Cachoeira de Paulo Afonso é mais grandiosa ou o fenômeno das pororocas mais impressionante, porque replicarei que o Taimbezinho é diferente. Dia virá em que há de formar, perfilado como está, entre as maiores atrações turísticas do Brasil.
Voltemos à BR-116 e ao nosso automóvel providencial, e tomemos o rumo do sul. As faces das pessoas e das casas que agora encontramos pelo caminho, gritam-nos alegremente: Itália! Estamos na chamada Zona Colonial. Os primeiros imigrantes italianos chegaram ao Rio Grande em 1874 e, como os colonos alemães já se tivessem estabelecido, havia cinqüenta anos, nos vales dos rios, decidiram subir a serra, povoando sua encosta e o próprio altiplano. Não será exagero afirmar que esses representantes duma raça de artistas plásticos "pintaram" ou, melhor, retocaram a nossa paisagem, dando-lhe novas cores. Suas vinhas, suas hortas, lavouras e jardins são manchas nos mais variados matizes de verde sobre o tom escuro da vegetação primitiva. Caxias, a mais importante cidade desta região, recebe-nos com sua alegria habitual. Nem só do vinho vive esta vigorosa comunidade montanhesa. Tem já a sua indústria, orgulha-se - entre outras coisas - de seus produtos de cutelaria. Aqui se trabalha em ritmo paulista mas com uma alegria mediterrânea.
Está com fome? Entremos neste restaurante. O garçom oferecenos diversas qualidades de massa. Um churrasco… quem sabe? Ou um galeto? (Devo explicar que se trata do famoso galleto al primo canto, - isto é, um inditoso frango que, mal termina de cantar a sua primeira ária de ópera, é condenado à morte.) O garçom sugere uma passarinhada, especialidade da região, e eu, quase indignado, replico que passarinho, como gente, prefiro vivo e em liberdade. Seja como for, comemos bem, à italiana, e bebemos o já muito bom vinho que aqui se produz.
Se você quiser, podemos visitar o resto da região - localidades como Farroupilha, Garibaldi, Bento Gonçalves, Veranópolis, Guaporé, Nova Prata - para ver como estes descendentes de italianos se adaptaram à vida brasileira, e observar as contribuições que nos trouxeram em matéria de costumes, comidas, festas, canções… Também vale a pena ver a paisagem montanhesa, com seus vinhedos a subirem as encostas, os seus vales, os seus montes que se arredondam na forma de seios, se você me perdoa o símile anatômico. E se por um outro passe de magia eu conjurasse o verão, poderíamos assistir a uma Festa da Uva, celebração dionisíaca em que o vinho jorra abundante e grátis, e belas raparigas com trajes de camponesas do norte da Itália desfilam pelas ruas em carros alegóricos - e toda a vitalidade e a alegria de viver desta gente se exprime em arranjos florais, canções, danças e festivais gastronômicos…
É tempo de prosseguir a jornada. A estrada serpenteia abraçando as montanhas. Passamos por casas de colonos e por vilas em meio de pinheiros e ciprestes. De vez em quando vemos avançar na direção de nosso carro meninos ou meninas - caras coradas como maçãs maduras - a nos oferecerem suas mercancias: ovos, rapaduras, abóboras, favas de mel, frutos da terra. E você reparou na cor das folhas de certas árvores? A dos cinamomos são dum amarelo de ouro novo. A dos plátanos, dum pardo seco e fosco. Mas quem brilha mesmo nessa exibição de roupagens de outono é o caquizeiro, com suas folhas alaranjadas, com manchas dum vermelho de ferrugem. E você por certo já notou que o estilo das casas vai assumindo outra fisionomia. E a incidência de cabelos louros e olhos azuis aumenta de quilômetro em quilômetro… É que estamos já entrando na zona de colonização teutônica. Em breve avistamos uma cidade que você jurará ter saído dum cromo da Baviera. É Novo Hamburgo, a contrapartida germânica de Caxias, capital da indústria de calçados e, em termos relativos, talvez o município mais fortemente industrializado do Brasil.
Pouco adiante de Novo Hamburgo encontramos São Leopoldo, às margens do rio dos Sinos :- "o rio que imita o Reno", inspirador do conhecido romance do nosso Vianna Moog. E, poucos quilômetros além de São Leopoldo, se você quiser, tomaremos a estrada que nos levará na direção do norte e, mais adiante, do nordeste, através do rico vale do rio Taquari, zona de produção principalmente agrícola. Se lá em cima da serra estávamos na faixa do vinho, aqui embaixo rodamos na da cerveja. Você notará que a música do falar do povo já é outra, e que outras também são as comidas. A minha amiga vai regalar-se com os produtos da arte da confeitaria tal como é praticada por estas plácidas Frauen que têm alma de cuca e café com leite. E com suas compotas, geléias, bolos, Kuchen… Se os primeiros colonos alemães abriram picadas no mato bravo, estabeleceram suas granjas e plantaram hortaliças e cereais - seus descendentes criaram pequenas indústrias nos centros urbanos. Pode-se dizer que a hoje considerável indústria gaúcha tem bases alemãs.
E se você me perguntar que foi que a imigração germânica produziu no Rio Grande em termos culturais, eu lhe citarei como amostra um nome, Augusto Meyer, um dos maiores prosadores da língua portuguesa. Devemos também à colonização alemã essa figura extraordinária de pioneiro moderno que foi Rubem Berta.
Vejo na expressão de seu rosto que, saturada de "estrangeirismo" , você está a pique de perguntar se meu Estado não possui nenhuma expressão luso-brasileira.
Espere. Suponhamos que agora é novembro. Estamos no coração do Planalto Médio. Para meu gosto estes são os mais belos campos do Rio Grande. Estendem-se a perder de vista, ondulando em suaves elevações - as coxilhas - que, nas suas linhas e cores, sugerem um andantino de Mozart, pois aqui o efeito de beleza é conseguido com os elementos mais singelos. Ofereço-lhe agora um quadro que você jamais esquecerá: um trigal maduro, pesado de espigas duma cor de palha dourada, sacudidas pelo fresco vento da primavera.
Está vendo aquela cidade plantada no alto dum coxilhão? É Cruz Alta, sede dum município que no passado era principalmente pastoril e relativamente pobre, mas que hoje é dos cinco maiores produtores de trigo e soja em todo o País. Temos em Passo Fundo outra cidade importante desta região, ainda mais rica e populosa que Cruz Alta. Você notará que o povo deste planalto é hospitaleiro, tranqüilo, sólido e sob muitos aspectos muito parecido com o paulista de origem lusa.
Podemos, passando peta próspera Santo Ângelo, visitar rapidamente as ruínas das missões jesuíticas de São Miguel, a jóia dos Sete Povos. Mesmo derrocado como está, o templo dá uma idéia de sua antiga imponência. Construído com arenito avermelhado, foi o centro duma florescente civilização, espécie de teocracia que até hoje interessa os historiadores, levando-os a controvérsias apaixonadas.
Devo dizer-lhe que estamos agora em plena Região Missioneira, cujos habitantes têm a reputação, não sei se merecida, de serem políticos astutos que sabem desconfiar, calar e esperar, gente matreira que segundo uma explicação folclórica - herdou essas qualidades dos índios desta região e dos jesuítas, seus mestres e senhores. Ah! Se você é getulista, podemos dar um pulo à pacata São Borja para ver a sepultura do Velho… Não é? Desculpe, não se fala mais nisso. O melhor então é seguirmos para o norte, para a região do Alto Uruguai, onde estão as nossas maiores reservas florestais. Podemos passar um dia em Iraí, excelente estação termal. Ali você poderá repousar, gozar do balneário, olhar os tucanos, os periquitos e outros pássaros coloridos dessas matas, ou então pescar no Uruguai ou ainda, com água pelo joelho, buscar ágatas e outras pedras semipreciosas no leito do grande rio.
E de repente é verão! Janeiro nos trará não apenas o calor, mas também as nossas melhores fmtas. Você se dcliciará comendo uvas claras, roxas, rosadas… Chamo sua atenção para estes pêssegos pequenos, brancos e corados, de caroço solto, que se derretem na nossa boca, doces a ponto de justificarem o nome que o povo Ihes dá: pingo de mel. E, se quiser, terá também ameixas, melancias, melões, figos e pêras…
Desçamos à Depressão Central. O verde continua, variado e intenso. O Rio Grande não tem áreas áridas a não ser a estreita faixa do litoral. Nossa temperatura média anual é de 18ºC.
Estamos agora no coração geográfico do Estado. Esta cidade de aspecto claro e festivo, em meio de cerras, é Santa Maria, encruzilhada ferroviária e cultural. Seu progresso nestes últimos anos tem sido extraordinário. Rejuvenesceu com o sangue novo que lhe injetaram, representado pelos milhares de estudantes de suas muitas escolas e colégios, bem como de sua florescente universidade, que no futuro há de rivalizar com as mais importantes do País.
Prepare-se agora para entrar na região que muitos consideram a mais representativa do Rio Grande do Sul, não só pelo cenário como também pelo caráter de seus habitantes. É a Campanha, nome que se dá, sem grande rigor fisiográfico, às vastas planícies alternadas com coxilhas baixas que ocupam a metade meridional do Estado, e que se estendem da borda inferior da lagoa dos Patos até às fronteiras do Brasil com o Uruguai e a Argentina. Encontram-se aqui as nossas mais importantes estâncias de gado bovino, ovino e eqüino, bem como consideráveis plantações de trigo e outros cereais. Como você diz que não dispõe de tempo para pereorrer toda esta ampla região, escolho Bagé para a nossa próxima parada. E quando a minha amiga manifesta o desejo de conhecer de perto a lida e a vida de campo, um dos mais prósperos criadores deste município convida-a para visitar sua estância. E aqui estamos na sua confortável casa campestre, que possui luz elétrica, água corrente, aparelhos de rádio e televisão. Nesta espaçosa mansão, conforto e bom-gosto se casam. E você verá que seu anfitrião corresponde à maravilha à imagem do gaúcho consagrada pela literatura e pela iconografia: um senhor alto e robusto, de largas bombachas de bom pano, botas finas, esporas de prata, lenço vermelho ao pescoço. (Ele lhe dirá que ainda é libertador e que seu avô foi federalista.) Você verá que ele fala claro e quadrado, sem omitir letras, mordendo as palavras com um deleite de bom carnívoro. Se você observar que sua maneira de pronunciar as frases lhe sugere um pontaço de lança, seu anfitrião lhe contará proezas de antepassados seus em cargas de cavalarias de idas revoluções ou remotas guerras. E não perderá nenhuma oportunidade de elogiar, minha amiga, seus encantos femininos. Com seu jeitão autoritário obrigará você a vestir bombachas, calçar botas, enfiar na cabeça um chapéu de abas largas, e sair com ele a trotear pelas invernadas. E você terá um dia inesquecível, observando de perto como se laçam e domam os potros, como se "pára" um rodeio, como se marca um cavalo ou um boi… E quando, no fim da jornada, o corpo dolorido, estonteada de verdes lonjuras, você voltar para casa, há de encontrar à sua espera um jantar que lhe parecerá um banquete.
Sobre a mesa - ao redor da qual estarão sentados os membros da vasta família do patriarca - você verá no mínimo uma dezena de pratos: um delicioso arroz-de-carreteiro, vários tipos de carne (churrasco, matambre, ensopado de ovelha, galinha ao molho pardo), batatas de forno, picadinho de abóbora, feijão preto… (Está bem, não resmungue, um dia você e eu havemos de escrever a quatro mãos o romance do gaúcho pobre que não come carne, não tem cavalo e mora numa choupana de barro e palha. Mas agora alimente-se, que temos de continuar a viagem.) Depois do jantar, você se surpreenderá ao ouvir o estancieiro discutir literatura e citar em francês Anatole France e André Maurois. (Ou será Sartre e Camus?)
Avante! Estamos agora em Uruguaiana, às margens do Uruguai. Aquela outra cidade, no lado de lá do rio, é Paso de los Libres, já em território argentino. Peço-lhe que atente na diferença entre esta gente e os serranos e missioneiros, no que diz respeito a comportamento, indumentária e maneira de falar. O uruguaianense de bom nível econômico traja com uma elegância portenha. É extrovertido, gesticulador e inimigo da surdina. Cumulará você de gentilezas que se expressarão nao só em palavras como também em presentes. Proclamará que, comparado com o melhor hotel de Uruguaiana, o Walford Astoria de Nova Iorque é "café pequeno". E o homem é tão pitoresco e simpático, que você estará disposta a acreditar em tudo quanto ele lhe disse em suas exaltações bairristas.
Apresento-lhe agora as célebres irmãs-siamesas: Santana do Livramento, a brasileira, e Rivera, a uruguaia. A fronteira internacional não passa duma linha imaginária que corta pelo meio uma das ruas. O trânsito dum lado para outro - tanto o de pessoas como o de mercadorias - é livre. Essa xifopagia urbana confere um caráter especial à civilizada Santana do Livramento.
Como as distâncias são largas e curto o seu tempo, tenho de recorrer ao tapete mágico para levá-Ia a duas importantes cidades de nosso litoral. Pelotas, aristocrática e tradicionalista, está para o resto do Estado assim como Boston está para os Estados Unidos. A cidade tem uma graça gentil, um certo recato feminino e uma tradição de cultura. E se você gosta de doces, este é o seu paraíso. Os desta terra são famosos. Entre, pois numa dessas confeitarias ou casas-de-chá e regale-se com rebuçados, bolos, tortas, pudins, quindins. Mas seria um pecado se fosse embora sem provar as famosas passas de pêssego. E será outro pecado irremissível se deixarmos a terra gaúcha sem visitar a cidade de Rio Grande, que fica aqui pertinho. Estes dois centros urbanos do litoral alimentam uma velha rivalidade, como duas vizinhas antigas que se cumprimentam, educadas, se sorriem, mas no fundo não se amam.
Rio Grande é um velho burgo marítimo, fundado em 1737, e tem esse misterioso encanto dos portos de mar. O rio-grandino nos falará com orgulho de sua praia, o Cassino, nas suas refinarias de petróleo, nos seus frigoríficos e também na sua biblioteca pública, a mais antiga e rica do Estado. Poderemos, se você concordar, ir ao cais olhar os navios e sonhar com outras viagens, mas, se está com fome, saiba que nesta cidade se come muito bem, principalmente peixes e mariscos.
Por fim, tenho a honra de apresentar-lhe Porto Alegre. Plantada sobre uma série de colinas e vales, às margens do rio Guaíba, a Capital do Rio Grande do Sul pode ser comparada às mais diferentes cidades do mundo: Istambul (sem as cúpulas e os minaretes), Seattle, San Francisco da Califórnia… Se você quiser saber das duas mais importantes especialidades da capital gaúcha, eu lhe direi sem hesitar: poentes fantásticos e mulheres bonitas. Esperemos, aqui mesmo no alto deste cerro, que o sol desça, e assim poderemos ver um crepúsculo que durará mais de uma hora, em mutações cromáticas que serão tanto mais esquisitamente belas quanto mais nuvens houver no horizonte.
Quanto às mulheres, desçamos às ruas do distrito comercial, situadas numa espécie de promontório que avança sobre as águas à feição de proa. Estreita, atopetada de gente, com homens de ar ocioso parados às esquinas e na beira das calçadas ou a flanarem dum lado para outro, a Rua dos Andradas, mais conhecida como Rua da Praia, lembra a famosa Calle Serpes, de Sevilla. Você notará que os habitantes desta metrópole guasca se movem numa cadência que é um termo médio entre a lentidão típica da gente latina e a pressa ianque do paulistano. Poderemos também dizer que Porto Alegre é "a capital mais classe média" do Brasil, - apesar de sua população já se estar aproximando alarmantemente da casa do milhão, de seu sky-line crescer para o alto e para os lados e de suas noites estarem povoadas de muitas dezenas de boates, bares boêmios e inferninhos, com a sua natural fauna de melenudos.
No verão o porto-alegrense pode fugir ao calor refugiando-se nas praias do Atlântico ou nas do Guaíba, pois quem não tem mar caça com rio. Se preferir a serra, um ônibus o poderá levar em pouco mais de duas horas, através duma região que mais parece um parque bem cuidado, a Canela ou Gramado, duas estações de veraneio de graça alpina.
Na minha opinião o maior encanto de Porto Alegre vem de sua topografia privilegiada, de seu cenário - dos verdes cerros que a cercam, deste céu lírico, de suas paineiras que rebentam em flores rosadas no outono, e do seu plácido estuário, que recebe as águas de cinco rios.
Suponhamos que você se arma de coragem e dum grosso casacão, e decide enfrentar o nosso inverno… Estamos (fantasiemos) em meados de julho e minha colega é solenemente apresentada ao minuano, o vento que vem do sudoeste, da região andina, e sopra gelado durante três dias, cortante como uma navalha, sob um céu limpo e rútilo… Se tivermos sorte, poderei levá-Ia à serra, para ver a neve e as estranhas flores de gelo que o inverno faz brotar nas árvores de Caxias ou Bom Jesus.
Comeremos pinhão quente, batata-doce e milho assado junto duma lareira amiga. Você provará as nossas bergamotas, isto é, as nossas tangerinas ou, se preferir, mexericas. Verá que as nossas laranjeiras nos terão devolvido no ouro de seus frutos todo o sol que absorvem durante o verão. E, em algum lugar do Rio Grande, minha velha amiga dona Bibiana lhe oferecerá um cálice de licor de butiá, uma fatia de pessegada com queijo - tudo preparado por suas mãos mágicas e ternas. E se sentarmos perto do fogo em alguma estância - digamos - no Alegrete ou em São Gabriel - é possível que um velho gaúcho se aproxime de nós e, devidamente motivado, se ponha a contar causos de guerras e assombrações. E você poderá ouvir de sua boca algumas de nossas lendas em estado puro: a do Negrinho do Pastoreio, a da mulita que ajudou Nossa Senhora, a da princesa moura que, por artes de magia, virou lagartixa com um carbúnculo chamejante na cabeça… E vendo e ouvindo esse campeiro tão íntimo da terra e da vida, tão iluminado pela sabedoria do coração, você compreenderá que o homem brasileiro é milagrosamente um só, de norte a sul, de leste a oeste, a despeito de todas as distâncias geográficas - um só no que possui de essencial: a cordialidade, o horror à violência, a capacidade de dar-se, e também de rir da vida, dos outros e de si mesmo.
Nessa hora, você, minha amiga, talvez já esteja preparada para olhar com mais tolerância - e quem sabe? - até com um pouco de amor para a terra gaúcha e a sua gente…