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as pernas da Úrsula · Jodok / Jodok
postado em 01/11/07 12:42 PM

Jodok

Já faz um tempão que uma grande amiga minha – a Claudia - se tornou escritora e depois publicou “As pernas de Úrsula”.

Intrigado com o título, tentei imaginar o que haveria do lado de dentro (do livro). Várias possibilidades me ocorreram e resolvi, antes mesmo de pegar o livro nas mãos e ser abalroado pela ilustração da capa, escrever sobre essas situações que o título me suscitavam.

Comecei a escrever a minha versão autobiográfica da história das pernas da Úrsula. Meu projeto era escrever uma série de contos curtos, depois disso ler o livro da Claudia e, finalmente, escrever outra série de capítulos pós-contato.

Aproveitando o plagismo assumido e escancarado do meu projeto, decidi também plagiar vários daqueles outros senhores da minha estante, e assim vamos reconhecer (espero) Cortázar, Scorza, Llosa e outros que nem sei.

Não preciso dizer que o projeto ainda não andou mais que uns poucos capítulos – esses librianos…

Estou publicando aqui os capítulos que vão ficando prontos, na expectativa de que ele possa ser retomado e de que algum dia eu possa enfim ler esse e os outros livros da Claudia.


Capítulo 1 – todos

Capítulo 2 – lotação

Capítulo 3 – a triste paixão segundo RM

Capítulo 4 – pobre Alphonsus

Capítulo 5 – (no prelo)

Capítulo 6 – pausa epistemológica

Capítulo 7 – carta-milonga à Úrsula

Capítulo 8 – (no prelo)
—————-

Inspirações






1 – todos


Úrsula AndressTodos amávamos Úrsula, especialmente pelo rico par de pernas que Deus lhe havia dado de presente. Pernas esguias, deliciosas, que acendiam todas as luzes do nosso bairro quando passavam.

Pernas oliudianas, que viviam projetadas nas matinês da nossa imaginação. Mesmo que tivéssemos que optar entre uma Kim Novak e uma Gina Lollobrigida, por exemplo – certamente ficaríamos com Úrsula.

Mas éramos pirralhos naquela época e Úrsula jamais olhou para qualquer um de nós. Nos trocou, por assim dizer, por caras como John, James, Elvis, Sean e Marlon. Sim, ela tinha uma queda por esses nomes americaninhos.

Até hoje nos reunimos de vez em quando e discutimos o que fazer por Úrsula. Porque alguma coisa tem que ser feita. Aquelas pernas merecem estar numa disputa de Oscar, são um longa metragem em si.

Semana que vem vamos falar com o Werner, colega nosso dos tempos de colégio e que faz filmes.

Desconfiamos que ele também seja um amante de Úrsula e que a coloque definitivamente onde tem que estar.

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2 – lotação


Assim que atravessou a rua, reparou nela. Imóvel no ponto do lotação. Estacou, atordoado por uma estranha sensação de tristeza. Vinha dela, com toda certeza, mas não de seu rosto ou da expressão dos olhos. Era como se fosse uma fragrância, “a falar dela pela rua”.

Absorta, ela não percebeu sua presença. Mas naquele dia ele apenas tomou a decisão de estudá-la. No outro, mesmo horário, a aguardou e tomou o mesmo lotação. Do fundo, viu, prazeroso, como sua costumeira imobilidade no ponto era imediatamente substituída por um vivaz folhear de revistas, conversas ao celular ou simplesmente um atento observar do movimento na rua, a ponta do pé delicadamente seguindo o compasso de alguma canção.

Quando descia, um dia aqui, outro ali, os passos eram vigorosos e até alegres. Um dia ele pôde ver um minúsculo U tatuado em seu pulso esquerdo. Gostou.

Reparou, assombrado, como as pernas desta mulher eram o motor de tudo. Seu humor, a auto-estima, o equilíbrio, mesmo a feminilidade – todo seu ser de alguma forma respirava no exato ritmo do movimento de suas pernas.


Quando ele lhe ofereceu um cigarro ela baixou os olhos. Sob a mesa, fez um movimento quase imperceptível com as mãos, como se quisesse afagar as próprias pernas, mas se deteve, a poucos milímetros da pele. Lentamente voltou a fitá-lo, agora com uma expressão de desalento, quase infantil. “Preciso ir”, disse.

...


Eduardo, que nome mais sem graça, pensou ela. Tinha reparado na aliança logo no primeiro dia. Chocada com a facilidade com que ele captara seu astral naquele tedioso ponto de lotação, pensou em se esconder, se proteger. Depois, decidiu correr o risco e ajeitou seus horários para poder estar no ponto sempre na mesma hora. E agora, essa…

Tinha certeza que não era só Eduardo, mais provável que fosse Carlos Eduardo. Aí, era demais.

Levantou os olhos. “Preciso ir.”

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3 – a triste paixão segundo RM

Sumário:

Cap. I – Já neste capítulo o desavisado leitor verá surgir o garboso senhor Dieter Malinek, que exala o cheiro de aventuras vividas nos quatro cantos do mundo e se diz jornalista
Cap. II – Se o senhor Dieter se chamasse Jean-Luc, poderia ser publicitário, mas isto só será compreendido mais adiante
Cap. III – Rita Pavone toma Icecream com soda
Cap. IV – O incauto RM vê, apreensivo, as pernas de Ulla amolecerem sob a voz do senhor Dieter
Cap. V – Finalmente o tradutor interrompe o relato para explicar que Ulla, neste caso específico, não é diminutivo de Ulrike, mas de Ursula, detalhe que RM não fez questão de esclarecer
Cap. VI – Aqui o leitor desconfia que os causos do senhor Dieter sobre Mares do sul, Triângulo das Bermudas e Machupichu são, na verdade, artifícios matemáticos
Cap. VI.a – Paralelamente, e por isso narrado no mesmo capítulo, o leitor observa Jean-Luc, o publicitário, utilizando artifícios matemáticos semelhantes com Suzanne
Cap. VI.b – O mesmo e esperto leitor entenderá que 171, por ser um palindromo, é igual a 171
Cap. VII – Onde o garboso senhor Dieter continua, e cada vez mais, a ser o centro das atenções
Cap. VIII – Ulla baixa os olhos e sob a mesa faz um gesto indefinido
Cap. IX – Em que o leitor não verá RM empalidecer, mas compreenderá seu silencioso lamento
Cap. X – Capítulo que não precisaria ser escrito, se não houvesse a súbita necessidade de palavras
Cap. XI – Resignado, RM observa o que aconteceu no capítulo anterior e diz coisas – agora, sim – desnecessárias
Cap. XII – RM conta o tempo. Ou, melhor, não conta
Cap. XIII – Aqui o leitor é colocado frente a frente com o reservado sr. prefeito, que conhece o paradeiro de Ulla, não se sabendo exatamente como
Cap. XIV – Mais uma vez o relato é interrompido, desta vez para advertir o desatento leitor que talvez nem para Ulla esta seja uma história feliz
Cap. XV – RM se recorda que naquele tempo tinha espinhas na cara
Cap. XVI – Após estes rodeios, RM explica que – ao que consta – Ulla nunca foi para Machupichu ou Bora-Bora ou as Bermudas
Cap. XVII – No qual RM não deseja contar o resto da história e diz que precisa ir
Cap. XVIII – Por sorte o normalmente reservado sr. prefeito nos explica que a senhorita Ursula é agora dona de um bar menos chique do que o intrigado leitor desejaria
Cap. IX – Neste penúltimo capítulo o curioso leitor ouvirá da própria senhorita Ursula histórias sobre ilhas distantes e também sobre um tal senhor Dieter Malinek, que conhecia o mundo todo e se dizia jornalista
Cap. XX – Nestas linhas finais da triste paixão segundo RM, o comovido leitor poderá decidir se RM consta ou não das reminescências da senhorita Ursula

“A chaque fête, à chaque bal, nous étions trois.
D’abord Suzanne et moi l’emmenions à la danse
Et puis enfin, Suzanne et lui, m’emmenaient, moi !”(RM)

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4 – pobre Alphonsus


Duchesse de Brabant Frater Alphonsus partiu deste mundo da mesma forma como veio, pensou o prior ao ver o puído hábito cuidadosamente dobrado junto à cabeceira do catre. O corpo de Alphonsus ainda estava intocado, encolhido dentro do nicho que enquadrava a minúscula janela do claustro. Uns fugazes raios de sol delataram o prolongado descuido com a saúde – constantes acessos de tosse e fadiga que nos últimos anos haviam perturbado o irmão, que Deus o tenha, deveriam ter servido de alerta. Pela primeira vez o prior pode observar esse corpo, agora tristemente definhado e roto. Pobre Alphonsus, suspirou.

Aproximou-se da janela. As roseiras em flor, esta deve ter sido a última visão do frade, tão abnegado às lides da jardinagem quanto às sacerdotais. Era inegável que as roseiras da Abadia de Rochefort deviam seu viço e graça às hábeis e carinhosas mãos do irmão Alphonsus, que diariamente, após a leitura dos Evangelhos, as regava e cuidava.

Muito cedo, ainda sob a tutela do pai, frade Alphonsus aprendera tudo sobre o cultivo das rosideae. Sabia como ninguém reconhecer e combater ferozmente o mofo-branco e o mofo-cinzento. Tornou-se um implacável exterminador dos pulgões, dos ácaros e das formigas cortadeiras. Sob suas mãos zelosas vicejavam as perfumadas Cardeal de Richelieu, de cor púrpura, e as Príncipe Negro, que mais tarde se difundiriam por toda a Europa. Mas frade Alphonsus demonstrava uma verdadeira predileção pela graciosa Duchesse de Brabant, o que o levava a percorrer regularmente todo o condado em busca de novas cultivares. E foi uma destas peregrinações que mudou decisiva e definitivamente o destino de Alphonsus.

Esquecidos manuscritos do monge agostiniano Mendel sobre a Rosa alba, que Alphonsus resgatara por algumas moedas de prata na biblioteca monástica de Brünn, conduziram-no, num gélido dia de abril, ao convento de Yorkheim.

Antes mesmo de fazer soar a sineta de bronze que anunciaria a chegada do visitante, Alphonsus se deteve. Sentiu-se acolhido por um suave mas confortante aroma de uma flor muito especial – a sua Duchesse! Esgueirou-se por entre a espessa vegetação que qual alameda o levaria ao pesado portão principal do convento e, deixando-se guiar apenas por uma estranha sensação de leveza corpórea, alcançou uma pequena videira junto à muralha leste, cujo portão, entreaberto, dava acesso a uma bem-cuidada horta, cercada de imponentes roseiras.

Cerrou os olhos e inspirou profundamente aquele perfume. Permaneceu assim, imóvel, quase enternecido, por muito tempo. O que despertou o frade foi uma presença, uma sombra, mais que um movimento. Uma grande borboleta azul-turquesa alçara lânguido vôo no momento em que irmã Úrsula cruzou o portãozinho de ferro. Ao se deparar com a inesperada figura do frade, estacou e enrubesceu levemente. Depois se aproximou, vagarosamente, para cumprimentar o desconhecido.

Por alguns instantes Alphonsus teve a impressão de estar observando ao mesmo tempo as garbosas rosas, que agora estavam às suas costas, e o movimento da irmã, que caminhava – não: flutuava – em sua direção, lembrando a borboleta que o havia despertado há pouco. Um anjo, pensou alvoroçado.

A paixão que irmã Úrsula de imediato despertou no frade foi ainda mais intensa do que aquela que a mais perfeita das Duchesse de Brabant poderia provocar. De volta ao seu catre, Alphonsus sonhou por três noites seguidas com uma borboleta de longo hábito azul e sorriso angelical.

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6 – pausa epistemológica


Nesse momento do projeto, comecei a ter dificuldades. Esgotaram-se as Úrsulas próximas e distantes e nem tinha completado a meia dúzia – nem a pau e corda, como se diz.

Ah, se eu tivesse partido de um livro mais propício, como por exemplo Ursulas Beine und andere Möglichkeiten... Poderia, também, ter aguardado a edição multilígue, mas acho que agora é tarde e, além disso, mesmo a versão em inglês Ursula´s legs and other Possibilities não passa de uma referência na coluna da direita.

Nossa pausa epistemológica (a momentary lapse of reason), então, vai tratar da questão “Quem conhece Úrsulas?” Quero mais que seis, oras.

Sei de um cara Gooooo… quero dizer: gordo, que conhece quase todo mundo. Coloquei-lhe a questão. Ainda bem que ele é muito rápido e prestativo.

“Ursula”, ele me disse após 0,19 segundos, “Ursula, assim sem acento no U, são umas 23.100.000”.

Putisgrila, pensei, dá-lhe Ursula! E eu aqui, conhecendo tão poucas.

“Úrsula”, continuou o gordão (0,30 segundos), “Úrsula, assim com acentinho agudo no U, 22.900.000”. Isso ainda é Úrsula pra dedéu!

Aproveitemos o dileto gordo-bem-informado, e vamos direto ao queijo da questão. As pernas, seu bolha, as pernas!

“OK”, disse-me ele prolixamente, “tem 36.500 neguinhos falando disso, mas…”

Não gostei desse “mas…”, espichado e carregado daquele sotaque gauchês bonfiniano mãããããs…

“Mãããs”, caçoou ele, “em se tratando de pernas que são de Úrsulas, restam 435. E olhe que contei mais de uma vez”.

“Em se tratando” é o que há... Bom, isso ainda é mais de seis. Um pouco mais.

Percebi que o gordo continuava me olhando, com um sorrisinho no canto do olho. Aiaiai. Aí tem. Tu não me vem de borzeguins ao leito! Sim. Fui rude com ele.

“Bom”, admitiu ele, “se descontarmos as Úrsulas da Claudia, sobram 2. Isso, contando as tuas 5”.

...

Não acredito: ele riu de mim!

Mas, enfim, danou-se! Onde teriam ido tantas Úrsulas – aquelas bilhares? Por que por que por que ninguém falava das pernas delas? Lembrei que perto de casa tem um colégio chamado Santa Úrsula… essa certamente tinha ralado com as minhas estatísticas. O gordo riu outra vez, satisfeito.

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7 – carta-milonga à Úrsula


se um dia cruzares meus rumos
de dires e venires tanto
verás alpargatas, poeira
meu rastro perdido num canto.
– apenas isso encontrarás
– mas a mim nunca jamais.
– a mim nunca jamais

se chegares até minha casa
subindo a rua, à direita
a mesa estará bem posta
um fogo, uma cama estreita.
– sim, isso tudo encontrarás
– mas a mim nunca jamais.
– a mim nunca jamais

se procurares mis coplas
rascunhos, rabiscos, tormentos
terás de guia as madrugadas
as nuvens e os quatro ventos.
– e apenas isso encontrarás
– mas a mim nunca jamais.
– mas a mim
– nunca jamais

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Inspirações


todos
. Queremos tanto a Glenda – Julio Cortazar
. Ursula Andress
. Werner Schünemann (2° grau)

lotação
. 4° motivo da rosa – Cecília Meireles

a triste paixão segundo RM
. A paixão segundo G.H. – Clarice Lispector
. Dieter Malinek, Ulla und ich – Reinhard Mey
. Jean-Luc, Suzanne et Moi – Reinhard Mey
. Reihard Mey
. A dança imóvel – Manuel Scorza

pobre Alphonsus
. A abadia dos beneditinos – J. W. Rochester
. A catedral – Alphonsus de Guimarães
. Tia Julia e o escrivinhador – Mario Vargas Llosa

pausa epistemológica
. A momentary lapse of reason – Pink Floyd
. Google search engine

carta-milonga à Úrsula
. De tanto dir y venir – Atahualpa Yupanqui
. Nunca jamás – Atahualpa Yupanqui

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