“A chaque fête, à chaque bal, nous étions trois.
D’abord Suzanne et moi l’emmenions à la danse
Et puis enfin, Suzanne et lui, m’emmenaient, moi !”(RM)
Frater Alphonsus partiu deste mundo da mesma forma como veio, pensou o prior ao ver o puído hábito cuidadosamente dobrado junto à cabeceira do catre. O corpo de Alphonsus ainda estava intocado, encolhido dentro do nicho que enquadrava a minúscula janela do claustro. Uns fugazes raios de sol delataram o prolongado descuido com a saúde – constantes acessos de tosse e fadiga que nos últimos anos haviam perturbado o irmão, que Deus o tenha, deveriam ter servido de alerta. Pela primeira vez o prior pode observar esse corpo, agora tristemente definhado e roto. Pobre Alphonsus, suspirou.
Aproximou-se da janela. As roseiras em flor, esta deve ter sido a última visão do frade, tão abnegado às lides da jardinagem quanto às sacerdotais. Era inegável que as roseiras da Abadia de Rochefort deviam seu viço e graça às hábeis e carinhosas mãos do irmão Alphonsus, que diariamente, após a leitura dos Evangelhos, as regava e cuidava.
Muito cedo, ainda sob a tutela do pai, frade Alphonsus aprendera tudo sobre o cultivo das rosideae. Sabia como ninguém reconhecer e combater ferozmente o mofo-branco e o mofo-cinzento. Tornou-se um implacável exterminador dos pulgões, dos ácaros e das formigas cortadeiras. Sob suas mãos zelosas vicejavam as perfumadas Cardeal de Richelieu, de cor púrpura, e as Príncipe Negro, que mais tarde se difundiriam por toda a Europa. Mas frade Alphonsus demonstrava uma verdadeira predileção pela graciosa Duchesse de Brabant, o que o levava a percorrer regularmente todo o condado em busca de novas cultivares. E foi uma destas peregrinações que mudou decisiva e definitivamente o destino de Alphonsus.
Esquecidos manuscritos do monge agostiniano Mendel sobre a Rosa alba, que Alphonsus resgatara por algumas moedas de prata na biblioteca monástica de Brünn, conduziram-no, num gélido dia de abril, ao convento de Yorkheim.
Antes mesmo de fazer soar a sineta de bronze que anunciaria a chegada do visitante, Alphonsus se deteve. Sentiu-se acolhido por um suave mas confortante aroma de uma flor muito especial – a sua Duchesse! Esgueirou-se por entre a espessa vegetação que qual alameda o levaria ao pesado portão principal do convento e, deixando-se guiar apenas por uma estranha sensação de leveza corpórea, alcançou uma pequena videira junto à muralha leste, cujo portão, entreaberto, dava acesso a uma bem-cuidada horta, cercada de imponentes roseiras.
Cerrou os olhos e inspirou profundamente aquele perfume. Permaneceu assim, imóvel, quase enternecido, por muito tempo. O que despertou o frade foi uma presença, uma sombra, mais que um movimento. Uma grande borboleta azul-turquesa alçara lânguido vôo no momento em que irmã Úrsula cruzou o portãozinho de ferro. Ao se deparar com a inesperada figura do frade, estacou e enrubesceu levemente. Depois se aproximou, vagarosamente, para cumprimentar o desconhecido.
Por alguns instantes Alphonsus teve a impressão de estar observando ao mesmo tempo as garbosas rosas, que agora estavam às suas costas, e o movimento da irmã, que caminhava – não: flutuava – em sua direção, lembrando a borboleta que o havia despertado há pouco. Um anjo, pensou alvoroçado.
A paixão que irmã Úrsula de imediato despertou no frade foi ainda mais intensa do que aquela que a mais perfeita das Duchesse de Brabant poderia provocar. De volta ao seu catre, Alphonsus sonhou por três noites seguidas com uma borboleta de longo hábito azul e sorriso angelical.
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6 – pausa epistemológica
Nesse momento do projeto, comecei a ter dificuldades. Esgotaram-se as Úrsulas próximas e distantes e nem tinha completado a meia dúzia – nem a pau e corda, como se diz.
Ah, se eu tivesse partido de um livro mais propício, como por exemplo Ursulas Beine und andere Möglichkeiten... Poderia, também, ter aguardado a edição multilígue, mas acho que agora é tarde e, além disso, mesmo a versão em inglês Ursula´s legs and other Possibilities não passa de uma referência na coluna da direita.
Nossa pausa epistemológica (a momentary lapse of reason), então, vai tratar da questão “Quem conhece Úrsulas?” Quero mais que seis, oras.
Sei de um cara Gooooo… quero dizer: gordo, que conhece quase todo mundo. Coloquei-lhe a questão. Ainda bem que ele é muito rápido e prestativo.
“Ursula”, ele me disse após 0,19 segundos, “Ursula, assim sem acento no U, são umas 23.100.000”.
Putisgrila, pensei, dá-lhe Ursula! E eu aqui, conhecendo tão poucas.
“Úrsula”, continuou o gordão (0,30 segundos), “Úrsula, assim com acentinho agudo no U, 22.900.000”. Isso ainda é Úrsula pra dedéu!
Aproveitemos o dileto gordo-bem-informado, e vamos direto ao queijo da questão. As pernas, seu bolha, as pernas!
“OK”, disse-me ele prolixamente, “tem 36.500 neguinhos falando disso, mas…”
Não gostei desse “mas…”, espichado e carregado daquele sotaque gauchês bonfiniano mãããããs…
“Mãããs”, caçoou ele, “em se tratando de pernas que são de Úrsulas, restam 435. E olhe que contei mais de uma vez”.
“Em se tratando” é o que há... Bom, isso ainda é mais de seis. Um pouco mais.
Percebi que o gordo continuava me olhando, com um sorrisinho no canto do olho. Aiaiai. Aí tem. Tu não me vem de borzeguins ao leito! Sim. Fui rude com ele.
“Bom”, admitiu ele, “se descontarmos as Úrsulas da Claudia, sobram 2. Isso, contando as tuas 5”.
...
Não acredito: ele riu de mim!
Mas, enfim, danou-se! Onde teriam ido tantas Úrsulas – aquelas bilhares? Por que por que por que ninguém falava das pernas delas? Lembrei que perto de casa tem um colégio chamado Santa Úrsula… essa certamente tinha ralado com as minhas estatísticas. O gordo riu outra vez, satisfeito.
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7 – carta-milonga à Úrsula
se um dia cruzares meus rumos
de dires e venires tanto
verás alpargatas, poeira
meu rastro perdido num canto.
– apenas isso encontrarás
– mas a mim nunca jamais.
– a mim nunca jamais
se chegares até minha casa
subindo a rua, à direita
a mesa estará bem posta
um fogo, uma cama estreita.
– sim, isso tudo encontrarás
– mas a mim nunca jamais.
– a mim nunca jamais
se procurares mis coplas
rascunhos, rabiscos, tormentos
terás de guia as madrugadas
as nuvens e os quatro ventos.
– e apenas isso encontrarás
– mas a mim nunca jamais.
– mas a mim
– nunca jamais
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Inspirações
todos
. Queremos tanto a Glenda – Julio Cortazar
. Ursula Andress
. Werner Schünemann (2° grau)
lotação
. 4° motivo da rosa – Cecília Meireles
a triste paixão segundo RM
. A paixão segundo G.H. – Clarice Lispector
. Dieter Malinek, Ulla und ich – Reinhard Mey
. Jean-Luc, Suzanne et Moi – Reinhard Mey
. Reihard Mey
. A dança imóvel – Manuel Scorza
pobre Alphonsus
. A abadia dos beneditinos – J. W. Rochester
. A catedral – Alphonsus de Guimarães
. Tia Julia e o escrivinhador – Mario Vargas Llosa
pausa epistemológica
. A momentary lapse of reason – Pink Floyd
. Google search engine
carta-milonga à Úrsula
. De tanto dir y venir – Atahualpa Yupanqui
. Nunca jamás – Atahualpa Yupanqui
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